Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

22 de setembro de 2004

Economia privada my ass

Espero que a Compta seja punida exemplarmente e o Estado, enquanto meu representante na defesa dos direitos da minha filha em idade escolar, a processe e obtenha uma indemnização choruda. Mas — não me perguntem porquê — SEI que tal não sucederá. E suspeito que a Compta provavelmente ainda se fará pagar pelas horas extraordinárias dos últimos três meses e pela segunda versão do software que deu esta barracada toda e prejudicou centenas de milhar de professores, alunos e famílias e a imagem de alguns ministros — sem perder de vista futuros concursos públicos para o software do Estado. Economia privada my ass. Suspeitas reforçadas depois da leitura deste post de Luís Nazaré, que conhece tudo o que mexe nas Tecnologias de Informação na última década pelo menos.

(Deixo tambén o link da Compta para os arquivos: estrategicamente ou não, a página da empresa está branca.)

Follow-up noticioso:

O mercado pelo menos reagiu. Mas só depois da ministra sacar da colocação manual dos professores, uma decisão aviltante para um programa informático… As acções da Compta desvalorizaram quase 4% para uma queda de quase 11 % este ano (fonte: Jornal de Negócios online).

Descobri que não estou sozinho: segundo a mesma fonte «foram já vários os responsáveis e entidades a pedirem ao Governo que processe a Compta, exigindo à empresa uma indemnização pelos danos causados». Apesar disso mantenho a aposta com quem a quiser fazer: sai uma imperial em como a Compta nunca será processada pelo Estado e manter-se-á na disputa dos concursos públicos (ganhou este a 15 outras empresas, algumas bastanta boas nestas soluções).

Update 1:

Não percam este e este artigos de Tiago Azavedo Fernandes. O primeiro é uma análise curta do presente que nos ilumina sobre o verdadeiro lugar da incompetência. O segundo é uma história (documentada) hilariante sobre a utilização de recursos informáticos no ME. Pessoalmente só posso adicionar que discordo das opções do Estado no que respeita às escolhas dos servidores de informação pública na web. Saem sempre mais caras porque exigem recursos muito superiores ao que o serviço simplesmente exige e dão muito mais problemas de segurança. (Link via BdE, onde de resto o tema da colocação dos professores também está bem documentado desde… Junho.)

Update 2:

Neste post do Barnabé escreve-se: «Couto dos Santos e Rui Machete, administrador e Presidente da Assembleia-Geral da empresa Compta, responsável pelo programa informático de colocação de professores. São também militantes do PSD, ex-ministros e amigos de quem os escolheu sem concurso público.». Não por acaso, a respectiva caixa de comentários tem a melhor discussão pública sobre as responsabilidades técnica e política do fracasso em curso. Leiam, leiam.

No Gildot (onde se junta a comunidade de especialistas em TIC) o tema é mais técnico mas não deixa de ser recomendável. Alguns dos envolvidos trabalham ou trabalharam na informática do ME. «O meu Director de Curso, juntamente com outros professores da Faculdade, fizeram uma sessão de auditoria ao Software e o comentário dele foi inequívoco: “Inacreditável!”. Segundo ele, não havia ponta por onde se lhe pegue e, obviamente, tratava-se de factor C (cunha) em acção. Vou tentar aprofundar detalhes técnicos, visto que estou agora em aula com ele em Engenharia de Software :-) » (link da discussão).