Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

24 de julho de 2007

Entre Olhão e Faro: a história do Finn "submarino"

A luz e o vento e a lente e a intenção do olho por detrás da objectiva criam um efeito ilusório. Não é mar alto — ou sequer aberto. Nem é mar, a bem dizer, mas sim um braço dele, a Ria Formosa. A meio caminho entre Olhão e Faro, subindo o largo canal vindo da barra que separa o cordão dunar em Culatra para Sotavento e Barreta para Barlavento.

Conheço relativamente o canal, dos tempos da escola de vela e do Ginásio Clube Naval. Uma vez, numa regata Faro-Olhão-Faro, armei-me em engraçado e fui de Finn, uma antiga classe olímpica, um casco maravilhoso, porém um barco que pede um latagão tipo nórdico com 90 quilos de peso mínimo, e não o franzino que eu era nesse tempo. O Finn era do tempo anterior à Mocidade Portuguesa. Número de vela com um dígito, 7 ou 9, não recordo. Imaginam a antiguidade, um dígito. Fui buscá-lo a um sítio onde já servia de galinheiro. Limpámos o casco, lixei, envernizei e o Cabé reforçou a zona do patilhão (de ferro, pesadíssimo) com fibra de vidro, aquilo metia água por todo o lado.

Um submarino.

Eu adorei o Finn. Barco para um, vinha mesmo a calhar para um individualista como eu, depois dos cadets e vauriens e snipes em tripulação. Com ventos ligeiros, andava menos mal, mas nunca bem: o barco, uma antiguidade de madeira que tinha servido numas olimpíadas há décadas e corrido as escolas de vela do país desde então, era pesadíssimo. Se a brisa refrescava, conseguia plananços emocionantes — mas tinha de recorrer ao truque de encharcar no corpo duas camisolas de lã do mais grosso que havia em casa, para ganhar uns quilitos para pranchar (contrabalançar o efeito do vento).

riaformosabarrafaroolhao.jpg

O problema é que nesse dia da regata o vento subiu à força 4 para 5. Saí de Faro e, mesmo com quase meia vela a bater, o Finn disparava exactamente aqui, nestas águas onde tiro a fotografia, e tanto disparava que eu gritava de alegria e prazer puro e pranchava e gritava e gritávamos todos, lembro-me como se fosse ontem do Renato (proa) e do Luís Nadkarni (leme) (salvo erro era o Luís) a passarem por mim a berrar no maior plananço da vida deles e do Pato Bravo, um Snipe lindo, das primeiras séries em fibra, verde água, que marcou toda uma época na vela algarvia, pela cor e pela perfeição. Meio barco fora de água na “ondulação” da ria — só quem sabe lhe dá valor.

Até quebrar. Não consegui domar o bicho. Voltou-se. Água. Pior: cigarros molhados! Ainda consegui salvar um, que acendi e puxei três passas até se esboroar, isto para recuperar o fôlego e fazer força e consegui pô-lo, o Finn, na posição direita de novo, mastro erguido e vela a sacudir a água em pingos. Mas — não sei se estão bem a ver — o Finn não tinha caixas de ar, remediávamos com umas bóias meio furadas que davam apenas para uma pessoa se agarrar e manter-se à tona.

Um submarino.

Surreal: a vela saía de dentro de água, desafiantemente vertical, o barco todo submerso, e teimava em andar, tal era a força do vento. E eu, qual cavaleiro, a tentar domar o corcel selvagem — aumentando um pouco a velocidade tinha a esperança de fazer a água sair, levantando primeiro a proa um pouco, depois um pouco mais do casco… Uma eternidade ali a jogar aos dados com a Natureza, ora sai mais um pouco a proa, ora afunda de lado, e nunca mais ninguém ganhava.

Mas eu não era um latagão e como atleta enfim e tal. O fôlego abandonou-me quando passavam por mim os dois Moth em competição. Pouco depois, o barco de apoio, já a rebocar uma longa fila de azarados e espatifados, como eu. Chegámos a Olhão com o Sol fechado para balanço. O Finn teve de regressar a Faro por estrada, enquanto os outros ficavam para a regata de volta, no fim de semana seguinte.

Nunca mais navegou. Eu velejar, sim, sempre!, mas nunca mais quis competir. Ficou ali (onde agora tiro a foto e conto a história à querida Ana), com aquele Finn, a minha fraca vontade de participar em corridas. Os dois simbolicamente derrotados pela fibra e pela modernidade e pelos atletas latagões.