Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

27 de abril de 2005

Entre os intervalos da chuva

Fevereiro já lá vai, o “novo” Governo já não é novo senão entre aspas. Desde então o circus tem-nos sido proporcionado pelos sparring-partners eleitorais do Partido Socialista e outras vulgaridades sociais, a saber:

- um congresso no PSD que elegeu um líder de transição para arrumar a casa nos próximos quatro anos;

- um congresso no CDS-PP (ler: CDS menos PP) que elegeu um líder de surpresa para rearrumar a ideologia no seu lugar e varrer os resquícios do portismo que quase matava uma agremiação histórica da nossa democracia;

- um PCP ainda a levitar em torno de um secretário-geral bem educado, bem falante e bem parecido, coisa a que as massas comunistas têm manifestamente de se habituar;

- um BE que ainda não parou de admirar o brilhante bilhete de identidade que ostenta, finalmente, a palavra maioridade;

- a clientela política do centro na expectativa, uns de serem varridos do sistema, outros à coca do lugar que lhes caberá em sorte;

- um Presidente da República nos afazeres próprios de um alto dignatário em fim de comissão de serviço pela pátria;

- os opinion-makers a apontar baterias às picuinhices governamentais, depois destes dois meses de distracções “menores”;

- um povo que respira, finalmente, serena que está agora a classe política e que o Benfica lidera o campeonato.

No meio disto, o Governo lá vai passando entre os intervalos de uma chuva que teima em não passar de uma figura de estilo. O Primeiro Ministro adoptou um cuidadoso low profile que lhe renderá força lá mais para diante. Da acção governativa sabe-se vagamente que vai andando, ainda nas arrumações dos dossiers e na distribuição do tarefário colectivo. Os mais inquietos dos analistas são, claro está, os da zona económica, preocupadérrimos com os inexistentes sinais da retoma, os efeitos das macro-políticas e o espaço que é preciso preencher todos os dias à volta dos anúncios publicitários que alimentam os respectivos ordenados.

Falam (ou escrevem) basicamente para o boneco: a pátria está serena, confiante num timoneiro que não prometeu nada que não possa cumprir, que parece perceber alguma coisa, pelo menos, da governação; no mínimo ainda não cometeu nenhum deslize grave, nem da sua boca, ou das dos seus subordinados dilectos, saiu gaffe comprometedora — o que, tendo em conta o registo da última década, pode ser considerado um recorde absoluto e motivo de grande alegria!

É mais ou menos adquirido que o Governo ainda não fez nada de especial, certo. Mas ninguém no seu perfeito juízo que habite Portugal espera(va) actividade divinal, milagres económicos num país pobre de uma economia global e adversa, um golpe de asa, um coelho da cartola. Ou esperava?…

Há a sensação de que o país está pelo menos a ser gerido. De forma competente ou incompetente, não só é demasiado cedo para julgamentos, como depois das duas últimas legislaturas usar a palavra “competência” é extremo! Basta a palavra “gestão” para ficarmos contentes. Por agora. Por uns tempos.

Sócrates mostra querer ser um corredor de fundo, parece estar a preparar-se para oito anos. Nada a apontar, é uma estratégia legítima. Legítima e desejável. Legítima politicamente. E legítima governativamente. Desejável idem aspas: era bom, para variar, ter alguém ao leme que pensasse em mais que no noticiário televisivo da noite, nos jornais do dia seguinte e nos almanaques de fim de semana.

A rarefacção de factos é mais preocupação de comentaristas ociosos que das massas governadas. “Aquilo” dos Hospitais SA não pegou fogo, não havia lenha. “Isto” do “choque tecnológico” é mais sensível — mas Sócrates está a gerir a conta-gotas a informação. Aparentemente, a avaliar pelos primeiros passos, o uso da palavra “tecnológico” induziu em erro os teclados ansiosos: é “tecnológico” como em “científico” e não “tecnológico” como em “informática & telecomunicações”. O choque é no ensino superior e seus afluentes, não nas empresas “de ponta”, seja lá isso o que for em Portugal. O choque é na geração emergente e nas próximas, não outra distribuição de gasolina para os actuais Jaguares.

Por mim, preferia que o Governo tivesse tido o bom senso de não aparecer na operação de marketing chamada PT Escolas com que o grupo Portugal Telecom tenta acalmar os accionistas mais nervosos (e mais sabidos). Mas é desculpável: aparecer nas fotografias ao lado de criancinhas do secundário em frente a computadores é sempre bom para um governante, especialmente quando não é o dinheiro dos contribuintes que paga as facturas da propaganda. E não vem mal ao mundo por uma empresa montar uma tenda de circo para um concurso de jovens e chamar-lhe pomposamente “Escola do Futuro”, “Aventura do Conhecimento” e vacuidades do género. Em nome da saudável cooperação com os chefes da empresa onde o Estado é accionista de gabarito, até se deseja que um secretário de Estado debite frases-powerpoint como «este projecto combate a info-exclusão e leva a sociedade do conhecimento e da informação a todos os jovens» ou «é uma grande iniciativa e é uma aposta no futuro do país».

Em suma, parece que o “choque tecnológico” não será a versão 3.0, corrigida na maquilhagem e insuflada de dinheiro comunitário, da “Sociedade da Informação e do Conhecimento”, paz à sua alma. Confesso que fico aliviado. E expectante — mas por ora fica o “choque tecnológico”, como o Governo, em banho-maria.