Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

21 de agosto de 2007

Eu gosto é do Verão

Há uns indivíduos engraçados que gostam de etiquetar tudo e todos. E que a mim me etiquetam de “de esquerda” e “defensor de José Sócrates” – como se eu fosse um político, um advogado ou um guarda-costas.

Há um fundo de verdade nisto: a única vez que publicamente referi um sentido de voto foi nas últimas legislativas de no Partido Socialista. Fi-lo não por morrer de amores pelo PS e seus dirigentes, actuais, passados ou futuros, mas porque a troupe fandanga de Santana Lopes e antes dele a irresponsabilidade (desculpa, Ana) de Durão Barroso deixaram a coisa pública ainda pior do que outro socialista emérito, António Guterres, a tinha deixado. Além do castigo que evidentemente merecia, o PSD cometeu a imprudência de retrair a sua inteligência, deixando aos eleitores uma solução óbvia: o socialista mais parecido com a sua figura parental de referência, mais tarde justamente eleito Presidente da República.

Nunca ninguém pensou em quem votaria eu antes (não votei por convicção ao longo de duas décadas, já agora). E a partir daí o que de mim pensam é sobretudo uma alucinação e o que dizem e escrevem, um perfeito disparate.

Desde então, tenho atacado sobretudo o falso liberalismo — uma “corrente” de “opinião” que ganha corpo na Internet com retóricas estimulantes (mas retóricas anyway) e os zelotas da acumulação de capital que não hesitam em sacrificar o Estado e a coisa pública em prol dos interesses individuais, sejam quais forem as circunstâncias.

Como é de calcular, fico isolado e sem grupo numa blogosfera em que predominam as direitas, os meninos queques e sobretudo os wannabes que pensam que a riqueza se conquista por bajular os ricos e por osmose ao usar um ano de salário no pulso sob a forma de relógio de marca (e serão, infelizmente para eles, os primeiros usados e descartados pelo capital, que nem com um swatch lhes agradecerá os favores) e onde as esquerdas e os canhotos se entretêm com as causas da moda esquecendo decididamente as lutas de classe (alinhando com os que repetem ser isso um anacronismo e não conseguem ver em Chavez mais que uma maçada).

Eu divirto-me com a experiência, que calculo única, de ser um acrata a defender o Estado numa altura em que a democracia sofre ataques de todo o lado, incluindo surpreendentemente de onde menos se esperaria — dos formandos revolucionários de esquerda em geral e em quantos candidatos a putins e bushes que vêem desenhar-se na “crise” uma oportunidade de demagógico golpe.

Levo isso na conta de desafio.

A defesa dos pobres e oprimidos, a defesa das minorias, a defesa do trabalho estão hoje arredadas da iniciativa privada, da iniciativa individual e da iniciativa associativista e o Estado é a única garantia, por muito fraca que seja, de um mínimo de protecção.

É difícil pensar a direito num mundo darwinista e regido pelo Princípio Único da satisfação pessoal instantânea (live now substitui o aforramento, um “valor” essencial no século passado como ferramenta de acumulação do capital pela expropriação do produto do trabalho sob a forma de “poupanças”).

Em finais de XIX, princípios de XX fazia sentido a acção política e até revolucionária contra um “inimigo” bem definido enquanto alvo: tal fazia parte do crescimento e enrijamento dos ossos dos sistemas democráticos em formação. Hoje, a luta pela dignidade humana passa em primeiro lugar pela defesa do sistema, entretanto amadurecido ao ponto de cumprir os mínimos da protecção social. Porque aceitar a disrupção numa altura em que as únicas classes organizadas e com sex appeal são as detentoras do capital é aceitar a possibilidade do regresso à escravatura, qualquer que seja o eufemismo com que a mascarem desta vez.

Anos e anos caído em desuso, o slogan “proletários de todo o mundo, uni-vos” está a recomeçar fazer sentido. Separadas dos seus pequenos e médios privilégios, as classes médias começam a fundir-se perigosamente com o lumpen proletariado. Uns como outros nada possuem verdadeiramente: o fruto do seu trabalho é-lhes subtraído sob a forma de suaves prestações mensais — um eufemismo para o artifício legal que consiste em dar-lhes um “título de propriedade” condicional e ressalvado que é o seu bilhete para a ilusão de que um dia, se se portarem bem e pagarem cinco vezes o valor real do que quer que seja, serão proprietários de paredes entretanto envelhecidas, a precisar de obras e desvalorizadas pelo mercado que gosta é do novo e do moderno. Azar.

Esses milagrosos “títulos de propriedade quando e se, talvez um dia” permitiram ao capitalismo não apenas minar na origem o desejo de resistência e desobediência, como garantir que o suor de uma geração lhe pertence — e cada vez mais hipotecar a geração seguinte, que terá de continuar a pagar as prestações quando os pais sairem do mercado de trabalho, dispensados, despedidos, “reformados” ou excedentários, inúteis.

Concluindo e resumindo: eu não me revejo na esquerda nem sou socialista (se estivesse em algum lado, seria anacronicamente muito perto de um PCP revisto e des-sovietizado — algo que não existe). Sou muito pior que isso. É uma ironia que defenda amiúde o sistema democrático porque é hoje o único garante de algumas conquistas do século XX. E porque uma revolução, nesta altura de fragmentação da classe média, do desencanto das burguesias e da alienação das massas trabalhadoras urbanas (onde, suspeito, pode germinar algum pensamento político regado pela perpetuação dos recibos verdes), deixaria emergir os indivíduos com as piores intenções e formados nas piores escolas do pensamento doutrinário dos dois últimos quartéis, do liberalismo retórico às versões 2.0 do maoismo e do estalinismo pragmáticos que, como a Mafia moderna, erradicaram a doutrina, a vingança e a limpeza de sangue reduzindo-se à acção económica.

As minhas causas não são folclore. São a luta de classes, o fosso entre ricos e pobres e a questão da energia — e se o leitor abana a cabeça, divertido, óptimo: eu gosto é do Verão e de passear com o meu amor pela mão.