Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

19 de junho de 2006

Follow the lider (ou: a anã castanha)

Paulo Gorjão fez uma dupla pergunta pertinente (por que motivo os blogues citam tão pouco outros blogues? Ou recomendam tão pouco a leitura de outros blogues?) a Luís Carmelo, que não se fez rogado e lhe respondeu no 37º post da belíssima série (já aqui o disse e repito) sobre a blogosfera denominada o tom dos blogues.

O texto é extenso e merece leitura atenta. Gosto sobretudo do remate: «até porque um blogger é cada vez mais um corpo protético navegando a sós entre a afirmação, o desejo, a atenção e as novas galáxias simuladoras de proximidade».

anacastanha.jpg

(Crédito da imagem de uma anã castanha: Universe Today)

Julgo notar uma crescente solidão nos bloggers portugueses. Enquanto em 2003 e sobretudo 2004 existia um calor que ligava os vários nós da teia, uma excitação pelo meio e o seu potencial, que (n)os fazia sentir acompanhados, membros de uma perpétua e entusiasmante discussão de pontos de vista (consumada em links que teciam cada conversa), a partir de meados de 2005 algo se parece ter partido algures e a excitação deu lugar ao azedume. Hoje ninguém discute com ninguém na rede escrita em português (não se passa nada disto nos EUA ou em Espanha ou em França, cujas blogosferas continuam a crescer de interesse, medido sob a forma de links, consulte-se o Technorati ou qualquer dos outros locais que nos facultam leituras sobre o fenómeno).

A opção geral foi trocar a conversa pública (que dá trabalho e maçada) pelo confinamento privado. Os líderes olharam os seus níveis e descobriram que cada link seu alimentava o outro. Intolerável. Afinal, se tinham chegado ali mais valia centrarem-se na busca do seu público, sem aventuras pelos públicos alheios. Houve uma fase de recompensa: se te portares bem, linko-te. Passou, felizmente. Escreve-se para “os nossos”, escrevem-se os assuntos e palavras que sabemos que “os nossos” gostam de ler (ou ver reproduzidas por alguém “importante”, ou com mais peso). Ignoram-se os assuntos que possam desviar os nossos leitores.

Antigamente falávamos de microfone aberto, hoje escreve-se para o círculo íntimo (repare-se a propósito na reacção dos bloggers portugueses à ERC e perceber-se-á que a sua vontade colectiva não é ter responsabilidades editoriais, antes pelo contrário).

Talvez tenha sido a nostalgia desses tempos (e a incompreensão destes?) que levou Gorjão a questionar Carmelo.

Este gastou 1.200 palavras de boa prosa com o assunto. Sem desprimor, minimizou aspectos como a absurda predominância da política (que queimava todo e qualquer outro assunto) nos tempos da génese; hoje com a política reduzida a um nicho, abriu-se um espaço nas “audiências” ocupado pelo mundanismo que sempre caracterizou a maioria dos portugueses que lêem.

Eu resumiria o assunto numa frase: a vaidade superou a vontade.

À atenção de ambos: a rarefacção de links ocorre sobretudo no centro da blogosfera portuguesa e a partir do centro para fora. A atitude já contaminou as periferias imediatas, mas não chegou às segundas e terceiras coroas, à mole, que está saudavelmente longe do umbigo da blogosfera portuguesa. O problema é que a mole não tem massa crítica que a faça disparar (nomeadamente em direcção ao centro, substituindo os tecidos mortos do umbigo).

A blogosfera portuguesa é uma anã castanha.