Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

2 de agosto de 2007

Fuckedcompany: o jogo das empresas em apuros

É uma espécie de jogo das empresas em apuros. Em fuckedcompany.com aposta-se sobre as próximas empresas a desaparecer. Tétrico, mas informativo quanto baste.

Nos primeiros nove meses de 2006 as empresas de capital de risco a operar nos Estados Unidos da América atiraram 455 milhões de dólares, ou 351,34 milhões de euros, para as start-ups da web 2.0, calcula a Red Herring. Parte desse dinheiro já está perdido: tem vindo a aumentar o número de empresas a fechar portas antes sequer de resgatarem os cheques dos segundos e terceiros rounds de financiamento.

Nos tempos da bolha, a “temperatura” do mercado era medida num site que fez história. Agrupados debaixo do sugestivo endereço de www.fuckedcompany.com, subscritores de uma versão adaptada de um jogo macabro divertiam-se a seguir o noticiário de despedimentos, problemas financeiros, downsizings e outros indicadores de desequilíbrio na gestão; ganhavam pontos a indicar as empresas em dificuldades, sendo que quanto maior fosse a queda, mais eram os pontos. Este jogo de empresas em apuros acabava, no entanto, por ser um valioso centro de informações e o autor do site tornou-se conhecido.

Hoje, o fuckedcompany.com volta a estar na berra. A notícia mais recente informa que a Jambo fechou portas, despedindo os empregados sem lhes pagar o previsto por lei nem lhes dar os dias de férias. Entrada directa para o hall of fame, para uma empresa que chegou a anunciar a liderança do mercado americano de soluções pay-per-call. Ainda segundo «o lubrificante oficial da nova economia», que é a tag line da fuckedcompany.com, a SCO está prestes a abrir falência, o que para empresas como a Novell, a Sun e a Microsoft são boa notícias. O negócio da SCO consiste basicamente em manter disputas em tribunal relacionadas com a propriedade intelectual de pedaços de código usados em sistemas operativos.

Apesar de se notar um aumento do número de empresas em apuros, com a primeira vaga de despedimentos a afectar a imagem até aqui intocada das empresas web 2.0, os analistas continuam a não ver motivos para falar numa bolha em decomposição. «Em primeiro lugar, não foi soprada o suficiente para se tornar em bolha», disse à Red Herring o presidente duma empresa de consultoria e capital de risco do Massachussetts, Peter Cohan.

Outros analistas chamam a atenção, no entanto, para o facto de os investidores estarem a retrair-se à medida que se noticiam despedimentos nas tecnológicas de ponta. Sugerem que os primeiros players no palco da web social estão a segurar bem a vantagem conquistada na grelha de partida, com os copiadores, ou imitadores, a cairem na corrida. Os serviços de social networking como o Digg e o MySpace, a Wikipedia, o Technorati (pesquisa em blogues), o FeedBurner e o YouTube começam 2007 com bons auspícios e financiamento sólido, mas milhares de empreendimentos de todos os tamanhos e feitios não tiveram a mesma felicidade no mercado.

Philip Kaplan registou o site fuckedcompany.com a 27 de Maio de 2000, numa época em que a bolha especulativa inchava empresas de vão de escada. Parodiando a revista Fast Company e inspirado nas regras de um jogo popular nos EUA que consiste em prever que celebridades vão morrer em breve, FuckedCompany tornou-se um êxito, o jogo de apostas pós-irónico da era digital, como lhe chamou a Salon. Tentar adivinhar que empresa sobre-financiada estaria condenada era então mais fácil que hoje. Mas FuckedCompany.com acabou por sobreviver à era dot-com e continua hoje a traçar o quadro negro da nova economia, apontando o dedo às empresas com fragilidades.

(Expresso, 20/01/2007)