Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

7 de fevereiro de 2008

Fusão de conveniência para combater espectro da Google

( Publicado primeiro no Expresso online em 1 de Fevereiro de 2008).

A Microsoft foi a coqueluche dos anos 90. A Yahoo! encantou o mundo e os accionistas na viragem do século. Há três anos estes dois empórios entraram em declínio lento, ofuscados e manietados pela nova menina bonita do reino, tão querida e admirada pelo público quanto fria e calculista no negócio.

A solução?

Os dois antigos rivais tornam-se um só na tentativa de criar um exército suficientemente forte para combater o espectro do domínio avalassador que a Google representa.

Esta é a leitura imediata do negócio hoje proposto formalmente, em que a Microsoft compra a Yahoo! numa operação de 30 mil milhões de dólares.

Francamente, e numa frase: é a única saída possível. Logo, faz sentido e está justificada. Tanto que o anúncio da fusão de conveniência, que vinha a ser preparada há mais de um ano e apontada como inevitável há pelo menos três, foi de imediato recompensada pelo mercado de capitais.

A Microsoft teve a decência de deixar Terry Semel sair da presidência da Yahoo! antes de avançar com a proposta. Semel dissera não à oferta pública de aquisição há cerca de um ano, demitindo-se poucos meses depois mas mantendo-se em exercício até a empresa encontrar uma solução. Saiu ontem — uma notícia abafada pelos acontecimentos de hoje.

Financeiramente a fusão é uma benção. Sobretudo para a Yahoo!, cujo crescimento era negativo, desesperando os accionistas. Aliás, foi a baixa do preço das acções da empresa que tornou a operação possível nesta altura e não há um ano atrás. O preço oferecido por título — 31 dólares — equivale à cotação de Fevereiro de 2007, quando Semel se negou.

Mesmo integrando os funcionários, a Microsoft pensa que a aquisição permitirá à nova empresa uma poupança nos custos de mil milhões de dólares anuais.

Depois, há o mercado. A fusão é um passo firme no caminho da publicidade online, juntando as soluções tecnológicas da Microsoft com os serviços e clientes do Yahoo!.

Mas para lá da folha da Excel há um mundo, uma realidade. A tradição de uniões entre gigantes nesta área não tem dado grandes frutos — a comparação com a Time Warner / AOL é inevitável e sombria.

Pior. Ao contrário dessas duas, que estavam numa curva ascendente, aqui é um império decadente que propõe a aquisição de outro império já caído, uma saída que assenta na premissa de serem capazes, juntos, de fazerem o que não foram capazes de fazer como entidades separadas: criar algoritmos de pesquisa melhores que os da Google e canais para venderem publicidade.

Duas empresas gordas e lentas juntam as respectivas massas originando um novo organismo mais leve face à soma dos seus pesos anteriores, no pressuposto de serem capazes de correr mais depressa a partir desse momento.

Pode ser que resulte — mas parece improvável: Microsoft + Google trata-se de uma adição de talento, quando o mínimo que a brilhante Google exige num rival é uma multiplicação dele.