Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

13 de abril de 2007

Gates e Jobs: vinganças cruzadas

(Arquivo. Texto publicado originalmente no Expresso em 4 Abril 2006)

Enquanto Bill Gates amontoava milhões de dólares e de ódios, Steve Jobs ficava com a fama de santo e combatente do bem. Como as coisas mudaram.

A presença esta semana em Portugal de Bill Gates, o fundador da Microsoft e um dos homens mais ricos do planeta, é um sinal das grandes mudanças que a passagem do tempo opera sobre a nossa memória colectiva. Gates é hoje um homem admirado por distribuir parte da colossal fortuna que acumulou ao longo das últimas três décadas e a imagem de filantropo, que é justa, sobrepõe-se à do visionário tecnológico, propagandeada pela Microsoft ao longo desse tempo.

Bill Gates veio a Lisboa em duas acções políticas, como tem sido seu timbre desde que Janeiro de 2000 passou a chefia executiva da Microsoft para as mãos de Steve Ballmer e passou a presidente, cargo que, nos EUA, é eminentemente honorífico. Longe vão os tempos do impertinente cujo discurso hostilizava a Imprensa e os consumidores: como se tivesse tido um curso acelerado de como lidar com o público, Gates “vende” agora ideias e política em vez de produtos. O programa de reconversão tecnológica para 4500 desempregados do sector têxtil sensibilizará um parceiro europeu, que não por acaso tem um ex-primeiro ministro que lidera a mesma União Europeia que tem a Microsoft sob rédea curta no que toca à sua posição monopolista no sector da informática de grande consumo. Mas, política à parte, a verdade é que Gates distribui caritativamente largas somas de dinheiro, financia projectos carenciados e, acima de tudo, empresta um pouco do seu carisma a motivações que deviam ser de toda a humanidade. Foi isso, e não a sua (inexistente) capacidade inovadora no domínio da tecnologia, que o tornou (com a esposa, Melinda) Person of the Year para a revista Time em 2005.

A grande ironia de Bill Gates estar hoje no seu verdadeiro lugar, o de um magnata bem sucedido que decide ajudar o mundo através de causas e de dinheiro, é a de ter deixado expostos os que lhe faziam frente quando ele era o homem mais odiado do planeta (numericamente talvez ainda seja verdade, mas não se deve acreditar em todos os números que o Google nos fornece). A frase “Bill Gates is evil” encontra 2450 resultados no motor de pesquisa mais popular, contra 554 para “Steve Jobs is evil”. E no entanto Steve Jobs, o patrão da Apple Computer, que gozou e ainda goza da fama de combatente do “bem” e dos davids (A Apple tem 4% do mercado) contra o “mal” e os golias (a Microsoft tem mais de 90% do mercado), bem como de ser um visionário “high-tech”, merece hoje muito mais o epíteto de “porco capitalista” que o seu adversário de tantas batalhas.

É curioso verificar que tanto um como o outro podiam ter ascendido ao topo do mundo. Gates não ganhou exactamente a guerra, é mais indicado dizer que Jobs a perdeu por ter, nos anos de 1988 e 89, deixado arrastar as negociações com a IBM para um sistema operativo. «Steve tivera a oportunidade de tirar Bill Gates de cena e estragara tudo», recordam Jeffrey Young e William Simon no livro “iCon – Steve Jobs o maior renascimento na história da gestão”, recentemente publicado em Portugal (QuidNovi, Novembro 2005) e de leitura fascinante. «Podia ter sido Steve, em vez de Bill Gates, a sentar-se confortavelmente e, literalmente sem grande esforço, a ganhar dinheiro por cada uma das licenças de utilização em cada computador pessoal vendido».

Mas não foi. Quis o destino que Gates vencesse e passasse as duas décadas seguintes a somar inimigos quase tão depressa como milhões, enquanto Jobs caía em sucessivas desgraças (foi corrido da chefia da “sua” Apple”, fracassou com o NeXT, outro computador de sonho) que, a par da sua excentricidade (por vezes ia descalço para as reuniões e não raro cheirava mal), aumentavam a sua reputação de visionário e a fama entre o público.

Visionário, sem dúvida. A história recordará Gates como um magnata filantropo (link), com um parágrafo a mencionar o seu papel na imposição de algum do normativo que tornou possível a indústria da micro-informática.

Já Jobs “mexeu” profundamente com (até ver) três indústrias: a da micro-informática, depois a do cinema (ainda por terminar) e este século a da música. Jobs é o homem que há 30 anos “viu” os computadores tal como hoje eles são e ganhou os seus primeiros 100 milhões com isso. Há 15 anos “viu” como o digital seria o futuro do cinema e quase faliu enterrando sucessivos milhões numa então pequena empresa chamada Pixar – a mesma que começou com Toy Story uma saga que numa década mudou não apenas o cinema de animação mas toda a Hollywood. A mesma que acaba de ser comprada pela Disney, o grande objectivo de Jobs há anos, um negócio que na prática duplicou a sua fortuna de um instante para o outro. Só esse negócio leva o 194º homem mais rico em 2005 segundo a Forbes a subir mais de 150 lugares na lista, ascendendo ao top 50 com sensivelmente 7.000 milhões de dólares – e um cargo de administrador na Disney.

Há cinco anos, já depois de ter retomado o cargo de CEO da Apple numa jogada rocambolesca, “viu” como a distribuição de música seria diferente com a Internet e o potencial transformador das então emergentes redes de pirataria. Num golpe quase delirante, adquiriu um software (mais tarde rebaptizado iTunes) e lançou o iPod – o maior sucesso de sempre da empresa, responsável por um volte-face de proporções épicas nos balanços anuais.

Steve Jobs, o visionário, ocupa finalmente as capas dos jornais em vez de Bill Gates, o “visionário” já recolocado no seu lugar. Mas Jobs passou a ser o alvo. A popularidade de Gates sobe na proporção directa do bodo aos pobres, enquanto o avarento asceta Jobs não doa um milhão, que se saiba ( Steve Jobs vs. Gates: who’s the star?).