Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

15 de setembro de 2007

Halfbaked.com em Portugal: anatomia de uma notícia

Dois excertos da primeira notícia dada nos media portugueses sobre o halfbaked.com. É também a primeira menção na Imprensa portuguesa à BarCamp.

“A verdadeira prova do Halfbaked, realizado em Coimbra, é mostrar que boas ideias não precisam de meses de preparação”

“Somos dez pessoas escolhidas ao acaso, a maioria não se conhece, dão-nos uma lista com dez palavras e nos próximos 30 minutos iremos seleccionar duas, compor com elas o nome de uma «dot.com», engendrar um plano de negócio subordinado ao nome e apresentá-lo a uma audiência impiedosa“, em Meia hora para um plano de negócios, na Economia do Expresso de hoje.

Publicarei depois a versão integral da notícia, que teve de sofrer os necessários cortes de ajustamento ao espaço em papel.

Terei mais oportunidades de voltar ao assunto e ainda explicarei melhor a origem dos BarCamps, em si mesma uma reportagem apaixonante — e curial no momento em que descobrimos o livro de um Andrew Keen ofendido com o que chama de culto do amadorismo. BarCamps e livro são como que gémeos dipolares: nascidos da mesma origem genética no mesmo momento — e opostos.

Três notas:

1. A proposta inicial (e que foi aceite) era para um artigo de 3.000 caracteres sobre a BarCamp de Coimbra com dois textos laterais de uns 750 a 1.000 caracteres cada, com perguntas a Frederico Oliveira e com o halfbaked.com. O “real estate” do papel, porém, é uma actividade de complexa dinâmica que envolve outras notícias e outros jornalistas, todos a “competir” pelo espaço finito de um jornal, e o espaço reservado acabou por ser diminuído até 1.850 caracteres, optando eu e o editor por nesse caso concentrar a peça no halfbaked tendo em conta a cabeça, ou secção, da página (Gestão). Enviei um pouco mais, devo confessar, obrigando o Jorge Nascimento Rodrigues ao esforço de cortar.

Para quem lá esteve, como eu, ou quem esta por dentro, a peça é manifestamente curta e diz o óbvio; informação acrescentada, zero. Eu escrevo no Expresso para uma larga maioria de pessoas que não fazem parte da cibercultura, e para quem o halfbaked.com é uma novidade absoluta.

2. É mais difícil do que parece, a actividade de cavar nos jornais algum espaço para o que consideramos ser importante nas áreas que investigamos. Há 14 anos mudei de ramo no jornalismo, passando de “analista” no desporto para “divulgador” nas tecnologias de informação e conhecimento. Durante a última década o meu semana-a-semana tem sido composto essencialmente por este misto de alegria e frustração.

Alegria de cumprir o meu papel de informar.

Frustração por não o conseguir cumprir na íntegra. O facto de me poder escudar nas características da máquina refinadora que é a Imprensa — a forma que tantos camaradas meus encontram para superar o desgosto da amputação da peça redigida com esforço e voltar ao teclado no dia seguinte — nunca me serviu de lenitivo.

3. O acontecimento BarCamp é marcante, compreender a sua génese e a sua aceitação é meio caminho para entender o mundo produtivo dos próximos anos com a entrada no mercado de trabalho e a ascensão dentro das empresas de uma geração educada no contexto fervilhante da chamada web social. Gente habituada a laços soltos e fluidos (íntimos, sociais e profissionais). Gente formatada num contexto de pares que se movimentam horizontalmente e pouco disponível para contextos de relações verticais. Gente que faz sem precisar que alguém faça por eles.

Gente que — focando o tema — se auto-organiza com grande facilidade, sem esperar pela próxima convenção ou congresso para apresentar as suas ideias e projectos.

As un-conferences vieram para ficar e vamos ter, ainda, muitas notícias sobre o seu impacto nos aspectos da organização e gestão do trabalho.