Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

17 de julho de 2007

Ibéria: a razão de Saramago

Hoje estou do contra. Desconfio sempre dos unanimismos. As duas coisas, talvez. Ontem no meu barbeiro: “eu sempre disse, isto o nosso erro foi 1640″. Fiquei estupefacto: pensei que só eu pensava assim. Penso mesmo: o erro histórico dos portugueses foi recuperaram a independência de Castela, de outra forma teriam vivido muito melhor como espanhóis. E hoje eram bastante mais abastados. E felizes.

As palavras de José Saramago deixaram o país escandalizado — e eu, que não nutro por Saramago propriamente sentimentos positivos, só posso mesmo estar do lado dele. Desde logo, contra este uninimismo doentio, expresso nomeadamente na blogosfera (consultar aqui). Faz todo o sentido pensarmos na Ibéria. As diferenças entre as diversas partes que compõem o todo da península são as diferenças esperáveis entre, enfim, quaisquer províncias de um país de alguma dimensão territorial.

Faz todo o sentido pensarmos em termos ibéricos quando o mundo está globalizado. Faz sentido cultural, faz sentido económico, não vejo forma de não fazer sentido.

O único “problema”, aquilo que impede que as palavras de Saramago se tornem proféticas no curto prazo da História político-cultural da Europa, foi identificado por Vital Moreira: ao contrário do que se passa na economia, onde a tendência é centrípeta, politicamente vivemos num movimento centrífugo. Separatista, fragmentário. Ao contrário de Vital, porém, penso que a prazo a evolução da península pode muito bem passar pelo esbatimento de uma fronteira que já só existe verdadeiramente ao nível simbólico formal, não contando para a actividade económica e estando aceleradamente a perder a importância no plano cultural.

Há outro unanismo incongruente, mas fica para depois que tenho pressa de ir para Sul.