Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

15 de novembro de 2006

Influência e notoriedade: um caso de estudo muito actual (Manuel Falcão)

Manuel Falcão dispensa grandes apresentações (mas para os ignorantes e os esquecidos há a ficha na Wikipedia). Manuel Falcão é caso de estudo exemplar para contribuir para uma das mais velhas e estafadas discussões da blogosfera: notoriedade é o mesmo que influência?

A notoriedade do Abrupto terá reflexo idêntico na sua influência?

A notoriedade do Blasfémias significará que tem o blog uma capacidade de influência proporcional?

E que dizer da influência de Vital Moreira no Causa Nossa, um blog com muito menos notoriedade que os dois supra-citados? Ou de O Insurgente, com circunstâncias semelhantes? E Paulo Gorjão no Bloguítica, sempre a pressionar?

Como em quase tudo na blogosfera, interessa pouco esmiuçar isto, o que “dá pica” é tomar partido. Eu não tomo partidos. Excepto, claro está, pelo meu blog favorito e o que mais conta para o meu dia a dia, pessoal como profissional como até meditativo: o Modus Vivendi. Mas o Modus é de outra esfera (mesmo… tendo uma audiência superior à de Falcão).

Voltando ao Manuel Falcão. A sua Esquina do Rio não tem pretensões de cativar audiências e não concorre ao lufa-lufa dos “melhores blogues”, dos “bloggers mais influentes” e mais algumas campanhas de medição de umbigos (ou mais abaixo, segundo outros autores) que por aí grassam.

Manuel Falcão tem uma audiência diária por dia (Sitemeter) equivalente a uma hora das visitas ao Abrupto ou ao Blasfémias. O technorati da Esquina do Rio é miserável quando comparado com os pesos pesados da notoriedade: 114 links contra os 3.606 de Pacheco Pereira ou os 5.132 do colectivo do Blasfémias.

No entanto, se fossem aplicados critérios muito mais apurados para distinguir notoriedade (parecido, mas não o mesmo que popularidade) de influência, como os critérios de Nicholas Carr , veríamos que Manuel Falcão é um exemplo de alguém com muito mais influência que notoriedade.

O caso da notícia de ontem sobre os contratos assinados pelo Governo de Santana Lopes dias depois da derrota estrondosa perante a maioria socialista nas legislativas é a prova. Toda a direita e os liberais não encontraram mais nada para dizer sobre o caso excepto repetir o que Falcão — um ex-chefe de gabinete de Santana — escrevera em primeiro lugar. 600 milhões de euros e um quadro que cheira não a uma, mas a várias corrupções e tráfegos de influências — e bem esprimidinha a direita e os liberais saem-se com a leitura política óbvia do assunto: quiseram do que entalar o pobre Santana no dia do lançamento do seu glorioso livro. Os 600 milhões e as quatro empresas investigadas (e até a ligação do procurador ao caso) são totalmente irrelevantes perante o pérfido ataque ao pobre Pedro, que nem o deixam lançar um livro descansado.

Isto sim: é influência.

(Nota: este texto é sobre a influência e a notoriedade na blogosfera; não é um texto sobre os acontecimentos, a legitimidade do governo em funções na altura, o envolvimento de Gomes Dias, a incontornável presença do Dias Loureiro neste tipo de coisas — vai a todos os cenários do género, qual emplastro — nem mesmo sobre o súbito silêncio de uma blogosfera particularmente ruidosa quando apanha casos deste mesmo género — na área do governo e suas forças. Repito: este é um texto sobre a influência e a notoriedade na blogosfera e ——– pronto, ok, corta).

(Segunda nota: como é óbvio, nada me move contra um jornalista cujas passagens pelo Blitz, Independente e sobretudo Se7e recordo como bons exemplos de trabalho jornalístico).