Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

19 de fevereiro de 2007

Jornalismo: um dedo na ferida (ou dois, pensando melhor)

«Muito haveria para dizer sobre a crise da comunicação social portuguesa. Viu recentemente um estudo a que fez referência o JN sobre a escolaridade dos jornalistas?

É confrangedor saber que grande parte da classe não tem uma licenciatura — e acrescentaria que ao longo da sua carreira nunca se especializa em nada, nem actualiza as suas habilitações» (Paulo Gorjão no Bloguítica, a imprensa e a web)

Sim. É confrangedor. Só não é pior — diz aqui um jornalista que entrou para as redacções em 1978 com 18 anos, para estafeta — porque o panorama evoluiu bastante ao longo destes quase trinta anos. Quando obtive a carteira profissional (1981) contavam-se pelos dedos os jornalistas com frequência universitária, por regra em Direito (a Comunicação Social viria mais tarde). Muitos deles ainda aí andam — uma boa parte, penso, em cargos de chefia.

Por muito que eu pense que a chamada tarimba (ou sem lirismo: a prática continuada e tutelada pelos experientes) cumpre um papel insubstituível na formação de um bom jornalista, sei que uma base sólida de conhecimentos é uma mais-valia importante para o bom desempenho da profissão.

Por muito que eu queira acreditar na vocação e no talento, vi (vejo) demasiados jornalistas escondidos atrás de vocações e talentos para saber que uma Redacção precisa de mais que isso.

É confrangedor saber que a maioria não poderia — por um leque de razões que me dispenso de listar — especializar-se nem actualizar-se. Mas mais confrangedor ainda (para mim) é saber que muitos não pensam sequer nisso.

«É esta a ‘mão de obra’ que deve reagir à revolução em curso?» (idem).

Não, Paulo. A uma parte dessa mão de obra competirá, quando muito, pensar sobre os aspectos a montante e a jusante em que a web 2.0 altera o modus operandi do jornalismo. Alguns fazem-no (é ver as blogosferas). Um punhado até arriscou “mudar-se” para projectos online. Ah, e devem noticiar o que for notícia, já agora!

Mas a quem efectivamente cabe reagir é a quem controla o negócio que permite o jornalismo: os proprietários dos meios. São eles que mandam, são eles que detém o poder, são eles os responsáveis pelos meios de produção (e consequentemente a sua renovação).

Já que ficou na moda dizer bem do Expresso online (o que muito agradará a quem o produz e fico contente porque vai reforçar o ânimo de algumas pessoas que bem merecem o carinho), então deixa-me acrescentar que o salto notado não teria acontecido sem, em primeiro lugar, o empenho directo do proprietário. Pinto Balsemão deu o mote e definiu os traços gerais, isto é, o que ele pensa sobre a necessidade, quanto há para gastar, o que se quer em troca desse investimento. A partir daí — e só daí — a máquina entrou em movimento.

(Confirmar a minha afirmação é fácil: basta reparar nos patrões dos restantes meios.)