Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

6 de janeiro de 2008

Lá se despachou finalmente, coitado, o Pacheco

Quando o Pacheco irrompeu pela Redacção do Diário Popular, como relata o António na sua atlântica missiva de hoje, já eu não estava lá, tinha migrado para o Expresso para fazermos história com dois suplementos do melhor que a Imprensa já teve (Desporto e XXI, ambos irrepetíveis).

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Luiz Pacheco fotografado por Luiz Carvalho, na Feira do Livro em 1979

Não me foi apresentado pessoalmente o figurão, embora com ele tivesse cruzado o físico em mais de um local mal afamado da boémia bairroaltina.

Os justos encómios literários ficam muito bem entregues ao José Mário Silva (que texto tão bem escrito) e ao Daniel Oliveira, entre tantos outros que quiseram epitafear Luiz Pacheco, numa (ele ridiculizaria) estranha e rara união nacional em torno de uma pessoa.

Como figurão, deixava muito a desejar. Conheci malditos de calibre grosso, alguns nos mesmos tascos. Nada a ver. O Bairro, aliás, desde tempos inglórios que tem duas espécies de heróis do basfond: os genuínos que vivem reclusos no fundo dos bares fugindo da luz e os figurantes que aparecem à porta das casas de fado para os turistas admirarem.

O Pacheco que entrava ou deambulava pelos becos era uma construção. O gajo que dava nas vistas nas entrevistas para sobreviver. Vivia disso, de uma fama que alimentou ao longo de sempre, ou quase.

É de compreender. As letras por cá não alimentam génios — e se hoje há tratadores da língua que se safam a viver dela, ao tempo de Pacheco não havia equívoco: um génio ou nascia príncipe (ou em alternativa burguês) ou comia restos. Gloriosos, evidentemente, que a porcaria dos pobres transmuta-se em virtuosidade sempre que trespassa a fronteira para o mundo do consumo, é de lei.

Este génio das letras não teve uma vida feliz. Ao contrário do que pintam os que da boémia têm a visão do turista, viver em pocilgas sem saber quem vomita ao lado não é razão de felicidade. Em Luiz Pacheco, a liberdade é estado puro, é dor e sofrimento e distância e eu desconfio que a liberdade em Luiz Pacheco é mais consequência que escolha, mas isso sou eu que sou um desconfiado e papei as entrevistas dele mais a ler o que não é dito, num acordo tácito com entrevistadores-admiradores ou, no piorzinho dos piores, entrevistadores a quererem dar nas vistas entalando o Pacheco (exercício inútil).

Acresce que o génio — como tantos outros — tinha mau fundo. Canalha, intratável, violento — irresistível só no sentido em que os bondosos se deixam ocasionalmente seduzir pela vertigem de privar com emanações da maldade. Felizmente para Luiz Pacheco, tendemos a recordar a obra e não o homem.

A vida de Pacheco, recordada por ocasião da sua piedosa morte, faz-me pensar na pele do destino da qual não conseguimos escapar. Se um gajo é visto duas vezes a mijar contra uma parede, bêbado, essa imagem vai-se colar a ele para o resto da vida e se porventura o gajo resolve que, já agora, manter a imagem rende uns trocos para o leite das criancinhas, pim!, passa a representar o papel sempre que a cortina se levanta ou o mealheiro tilinta.

Que sei eu, sei pouco, ainda que saiba que representar o figurão é uma das formas de o actor levar — com as luzes apagadas — uma vida. Há actores que acabam por ser engolidos pelo papel. Sim, olhando em volta é o que há mais por aí, gente confundida entre o que representa e o que é. Luiz Pacheco foi mais isso que um grande tratador da língua, mas foi também um grande tratador da língua, em pessoa e também editando corajosamente outros numa época difícil. Recordem-no por isso, se fazem favor, e deixem o boémio em paz.