Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

6 de outubro de 2004

La différence entre

Há quem insista em confundir papéis. O blogger pTd é uma coisa. A pessoa Paulo Querido é outra. E o jornalista outra ainda. Como blogger o meu avatar pTd é por exemplo mais truculento e ácido e irritante e desbocado do que a pessoa por detrás dele.

pTd é mais que um nick: é uma construção e uma representação. O Paulo Querido não está SEMPRE na net mas tem cá um avatar omnipresente que preenche o espaço por ele. É um conjunto de bits e um intricado de tecnologias a que ao longo de uma década me habituei a chamar pTd (que por sua vez é uma abreviatura do meu primeiro e único nick, ptdarling).

O meu avatar “comunica” com os leitores mesmo quando eu estou a dormir. Recebe o correio. Publica a horas determinadas textos pré-preparados. Toma nota do que me vão dizendo nos comentários. Vasculha zonas em busca de informação para mim, pessoa e profissional, que coloca habilmente em bases de dados, fazendo sumários para meu conforto. E mais uma série de tarefas, nem todas elas de representação.

O pTd é capaz de armar flames e depois o Paulo Querido arma em bombeiro. É normal. Uma coisa é o confronto de identidades incorpóreas através das redes digitais. Outra, bem diferente, o confronto entre pessoas.

A todos nós aconteceu embirrar solenemente com uma identidade digital e, uma vez conhecida a pessoa presencialmente, descobrir agradavelmente que se está próximo dela. O vice-versa acontece com a mesma frequência, dita-me a experiência.

É por isso que gosto — e na medida do possível acarinho e participo — dos ajuntamentos de bloggers. Acho-os utilíssimos. Se trocarmos pontos de vista, concordantes ou discordantes, é o único objectivo da comunicação, então há uma deficiência na comunicação. A comunicação tem uma finalidade maior: quebrar barreiras entre pessoas.

Por isso entristece-me quando alguém faz um julgamento sobre o pTd que automaticamente coloca um muro entre esse alguém e a pessoa representada pelo avatar pTd. Que é manifestamente mais complexa, rica de sentimentos e inteligência do que o seu avatar.

Nem todas as pessoas se fazem representar na net por uma construção digital. Algumas são elas próprias, andando por cá intermitentemente. Outras usam “actores”. Às vezes acabam a lamentar-se dos excessos comportamentais desses actores como se fossem elas próprias, num erróneo julgamento de que são “elas” que se expuseram.

Era um desabafo. Pronto, já desabafei.