Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

6 de janeiro de 2005

Manifesto anti-Lopes

Queridos irmãos, nunca antes me meti nestas andanças políticas e longe de mim – até hoje! – fornecer a alguém razões para votar em determinado partido. Um acrata empedernido como eu acha que todos (e cada um de nós) sabem o que pensar e o que fazer nas alturas difíceis.

Mas não aguento mais. Decidi publicar um manifesto político. No caso um manifesto anti-Lopes, já vos explico porquê. Sirva este manifesto para alertar as consciências que não o tenham sido ainda pelas trapalhadas inacreditáveis dos políticos em exercício de Poder (sim, meto no mesmo avião para a Sibéria o nosso inefável PR). Alertar, dizia, para a grave situação em que a classe política em debandada nos últimos anos deixou o País mergulhado.

Lido o manifesto, cada qual vote no que desejar desde que não seja nos partidos que andaram a brincar aos governos na última legislatura – eu cá aviso já: não só tenciono votar pela primeira vez nos últimos 20 anos, como informo que votarei no Partido Socialista e fica desde este terceiro parágrafo o eng. Sócrates a contar não apenas com os meus voto e empenho mas também, se for útil e necessário, com (alguma) força do meu trabalho para pôr o país nos eixos – tarefa que alguém terá de cumprir mais tarde ou mais cedo, e eu quando chegam estas alturas de deitar as mãos às vassouras e varrer o lixo que intoxica e deprime uma sociedade inteira, não me faço rogado!

O problema de Portugal, queridos irmãos, não somos nós, lúmpen proletariado, não sois vós, blogoriato pequeno-burguês, estudantes avulsos, pequenos e médios patrões e respectivos pequenos e médios funcionários – nem mesmo o gajo que desviou os fundos estruturais destinados à educação dos trabalhadores da sua empresa para comprar um T-2 para a amásia no Cacém de Baixo. Lá por a empresa ir alegremente para o fundo que tem o país a ver com isso?, o problema é do gajo e da amásia, coitada, uma casa, mesmo que de três assoalhadas e os alumínios da marquise anodizados e tudo, no Cacém de Baixo, olhe querida, troque de macho que a esse falta bestunto.

Bestunto! Queridos leitores, o problema de Portugal é bestunto! Temos uma classe dirigente com escassez de neurónio. A culpa em grande parte é nossa, nossa da sociedade, do país. Não podes ter uma nata maravilhosa a partir de um leite magro – diz-me a minha deliciosa mulher enquanto penteia as deliciosas melenas negras. Como de costume, tem razão. Sendo nós um país atrasado e pobre, é natural que a nossa elite seja uma elite pobre e atrasada. Seguem o raciocínio?

Então sigam isto: como se não bastasse termos massa cinzenta rarefeita no governo, tornou-se moda os donos dos raros neurónios que ainda habitam Portugal fugirem dos cargos. Ele é por causa dos baixos salários, ele é por causa do incómodo da exposição mediática, dizem, eu a primeira engulo a segunda só com muito alcaselça, mas prontos.

Falta de bestunto – esse é o problema número um. Resolve-se com o eng. Sócrates? – estou a ouvir as gargalhadas lá ao fundo. Bem, seguro seguro é que não se resolve DE CERTEZA com o dr. Lopes e o bando de madraços alapados ao poder em que o antes ilustre e distinto PPD/PSD se veio a tornar ao longo dos últimos 30 anos. Fora o PPD/PSD o partido dos Cavacos e Balsemões e eu ficava a assistir. Mas não é – e decido vir à liça. Sei que os meus neurónios não são da mais fina estampa, mas olho para a direita e não vejo por lá melhor que os meus. Logo, aqui me ofereço para a lide pública, se alguém pela esquerda me achar conveniente. E com esta declaração de princípio e disponibilidade quero mais dar um exemplo do que arranjar uma tarefa para mim, que sou e gostaria de continuar preguiçoso, bolas, e de manter o estatuto de perigoso independente que conquistei ao longo de um quarto de século sem cair em tentações. O exemplo é este: ó bom povo que me lês, troca a confortável posição de adepto de sofá, que disparata sobre tudo o que mexe, e atira-te à coisa pública. Ser político só é mau quando não se sabe sê-lo, não se tem ideias, não se tem imaginação, não se tem capacidade de entrega, abnegação. Ser político pode ser nobre, sim. Quando se tem competência e sobretudo não nos queremos demitir do nosso devir. Ora, numa altura em que o país TANTO precisa de liderança é necessário que as cabeças competentes venham a terreiro, se atrevam, espetem o dedo no ar, reivindiquem o que é delas por nascimento e educação: a oportunidade de contribuírem para a res publica.

Se José Sócrates estiver rodeado por um mar de massa cinzenta empenhado, novo, fresco, tirar Portugal da merda afigura-se-me possível. Entendo que o actual PS sozinho terá muitas dificuldades em fazê-lo: é como um núcleo de matéria não expandida, falta-lhe massa. A massa somos todos nós, todos os que têm algo para dar e não se revêem na direita, no que a direita tem feito ou apenas, como é o meu caso, acham que é tempo de a direita levar um cartão vermelho por péssimo comportamento e anti-jogo e ficar de fora nos próximos dois jogos.

Podemos e devemos melhorar a política, podemos e devemos devolver-lhe a dignidade perdida na última década graças mais aos desertores do que aos deserdados.

O problema número dois, isto na minha humilde perspectiva de camelo que andou duas décadas a olhar para a política de fora, é o baile mandado com que a rapaziada da direita consegue trazer o povoléu enganado e esquecido há um ror de tempo. Aí, meus irmãos, a culpa é sobretudo nossa – vai sendo tempo de nos confessarmos e pagar pelo pecado da melhor forma: lembrar quem realmente mandou no país nos 30 anos que já lá vão sobre Abril de 74, lembrar quem realmente conduziu Portugal ao actual estado de coisas, lembrar quem esteve ao leme do governo, da economia do Estado, das empresas do sector público e também do privado. Lembrar que se o país está na merda em que está, a responsabilidade é de quem o trouxe até ao esgoto. E quem nos trouxe até aqui, quem foi, quem foi?

Lembrar em suma, queridos leitores, que o PPD/PSD tem a incrível habilidade de se iludir a si próprio e ao país e em cada eleição apresentar-se como o salvador contra as oposições “culpadas”, quando, é facto, esteve sentado nas cadeiras do poder durante 19 anos, 15 dos quais SEM COLIGAÇÃO, sozinho, rei e senhor, isto desde o fim do PREC em 1976. 19 anos contra 11 do PS, coitado, que apesar disso leva sempre na corneta como o mau da fita.

E primeiros ministros? Mário Soares e António Guterres alinharam pelo PS enquanto pelo PSD tivemos Sá Carneiro, Francisco Balsemão, Cavaco Silva (uma década! A melhor em termos de qualidade de bestuntos, admito, ou a menos má se preferirem), Durão Barroso e Pedro Santana Lopes, o novo Dantas.

Apesar desta contabilidade, que é facilmente verificável, o PPD/PSD consegue sempre dar um ar de santinho que até mete dó, arrastando as velhinhas para o voto. Apesar de ser o principal responsável pelo estado de depressão a que o país chegou, o PSD consegue sempre apresentar-se às eleições como o único capataz competente na quinta. E nós, o povo, engolimos e aplaudimos. Desconheço como tem sido possível as oposições deixarem passar em claro este pequeno detalhe, que na minha opinião é fundamental para compreender a política portuguesa do século XXI e o estado a que ela chegou, arrastando um povo inteiro para os arrabaldes da Europa (o meu amor escreveria “a periferia da União”… tão querida).

Eu tenho ficado calado – mas agora não posso, ou rebento. É que ESTE PPD/PSD é o pior PPD/PSD de sempre. Sá Carneiro às voltas no túmulo, Balsemão impávido, Cavaco à beira de uma úlcera partidária e todos os barões de peso do partido calados ou a armar guerras ao seu palhaço de Lux, ao seu Dantas, este partido deixou de ser partido: é um espectáculo de circo.

Eu prefiro que o país seja governado por políticos, mesmo que novatos e tal, do que por malabaristas e coristas.

Por tudo isto, irmãos, redigi este manifesto e as mais palavras que, estou certo, hão-de vir nas próximas semanas. Que cada um que me leu respire fundo e medite no que leu. Que aja como a sua consciência ditar. A minha dita isto: votar PS e colocar-me humildemente ao serviço do próximo governo para ajudar, se o meu contributo puder ser útil, no que toca à Sociedade da Informação, que tem sido a minha praia nos últimos 15 anos, acho que aprendi umas coisitas. Lá porque não tenciono – em circunstância alguma! – perder a minha independência, tenho porém o dever de alertar os meus leitores e de agir como entendo que devo agir.