Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

7 de outubro de 2004

Marcelo e a dita censura

Que festim vai por aí na arena mediática com a demissão de Marcelo Rebelo de Sousa do cargo de comentarista dominical de um canal popularucho de televisão! Já li as coisas mais disparatadas e inverosímeis tanto em blogues (não espanta) como em jornais (ainda espanta menos).

Mas alguem acredita realmente que MRS se afastou em consequência de algum acto de censura?

Mas… houve algum acto de censura?!? Quer-se dizer. Um ministro mandou vir com umas larachas desgarradas, socorrendo-se de um quadro pretensamente legislativo e não-aplicável (o discutível direito de confronto, matéria absurdamente escorregadia), porque MRS comparou este governo ao último governo PS. Quer-se dizer, tanto um como outro usaram da liberdade de expressão para dizerem para quem os quis ouvir o que lhes apeteceu.

Sendo figura proeminente de um dos partidos mais importantes (numericamente) do país e que governa em coligação, MRS fez o que eu faria: aproveitou e bazou. Falou com o dono da estação e foi-se que tem mais que fazer. Para trás o que deixa? Um governo ainda mais entalado. Mas ele sai pela porta grande e inatacável.

Caramba, quase cinco anos de domingos estragados é bué de tempo! Aquela estação, caramba! Caramba, grande bofetada nalgumas figuras menores do partido!

Convém não esquecer que MRS não está morto para a política. Partidária e não partidária. Está na reserva. Teve uma oportunidade de ouro para capitalizar grande parte do descontentamento que grassa face ao actual governo, tanto dentro como fora do PSD. Aproveitou-a.

A populaça imediática, insana como manda a sapatilha, grita lobo! e até Cavaco Silva, caladinho há meses, mete o bedelho. Cavaco, meus: a figura do PSD e da direita para as próximas presidenciais! Cavaco, pensem bem. Porque carga de água Cavaco, que nunca por nunca (disse repetidamente ele) se incomodou com os jornais, que ajudou a liberalizar a comunicação social, vem a terreiro?

Ora, para a malta o ver na televisão. Com tanto protagonismo de MRS, mais vale pôr-se em bicos e pés — ou desaparece da pantalha de vez.

Percebem?

A manipulação de massas não é um acto de censura. Tem outro nome e outra profundidade. Pode ter contornos de malvadez. Mas também há limites dentro dos quais é feita com “decência”.

Cá para mim estamos perante um caso de manipulação da opinião pública. Nunca de um caso de censura. Não vi ninguém amordaçado. Não vi sequer essa coisa da “pressão” para “calar” uma “voz incómoda”. Vi um ministro a gritar umas larachas inconsequentes. E na falta de assunto para as massas da elite (as outras massas estão bem fornecidas para a invernia com doses maciças de espreitanço aos pipis dos “famosos” na mesma estação de onde MRS zarpou a todo o vapor) quem não tem Quinta caça audiências com o que tem à mão.

PS: Luís Nazaré escreveu no Causa Nossa um artigo de leitura perigosa pois associa dois assuntos sem ponta de semelhança. O intervencionismo na Comunicação Social é uma coisa: considerar MRS vítima desse intervencionismo não passa de um golpe de aproveitamento. Não foram as “centrais de assessores” que protagonizaram o confronto com MRS: foi um ministro. O confronto ocorreu em pleno espaço público e não nos gabinetes.

MRS sai eventualmente ofendido. Não sai empurrado. Até MRS vir dizer que foi “convidado” (com ou sem aspas) a sair aceito a primeira versão que ouvi: a de que a iniciativa de conversar com Paes do Amaral foi dele.