Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

11 de abril de 2007

Media e tecnologia em união de facto

Larry Page Google @ ces 2006

(Arquivo: texto publicado originalmente no Expresso em 14-01-2006)

O “big happening” de Las Vegas dissipou as dúvidas que subsistissem acerca da convergência anunciada na década de 90

Que têm em comum Bill Gates e Justin Timberlake, Howard Stringer, Tom Hanks e Dan Brown, Morgan Freman, Danny de Vito, Ellen Degeneris, Terry Semel e Tom Cruise, e ainda Larry Page e Robin Williams? Todos pisaram os palcos da CES2006, o International Consumer Electronics Show que anualmente decorre em Las Vegas, no estado americano do Nevada.

O comediante Timberlake ajudou o fundador da Microsoft na sua palestra de abertura da gigantesca feira que é também um ponto de situação acerca das indústrias que compõem a electrónica de consumo – computadores, televisões, “gadgets”, leitores de mp3, ecrãs de plasma, telefones portáteis, câmeras digitais, para nomear apenas alguns dos aparelhos mais correntes. Stringer, CEO da Sony, conversou no palco com Hanks, actor chave, e Dan Brown, autor do livro em que se baseia a filme “The Da Vinci Code”, que está em produção. Freeman, e de Vito estiveram pela Intel, Degeneris e Cruise abrilhantaram os discursos e palestras de uma das principais estrelas da CES2006, o presidente e CEO da Yahoo! Terry Semel, e finalmente Robin Williams emprestou graça ao tão desenxabido quanto multimilionário e influente Page, fundador da Google e a outra estrela principal.

Em suma, os pesos pesados da indústria que ainda é conhecida, embora erradamente, por “da informática”, puxaram da carteira para que nada faltasse ao “show” e contrataram os “big guns” do cinema. O efeito simbólico não podia ser maior: anunciada na última década do século XX, a convergência entre informação, entretenimento e tecnologia é hoje um facto e o que falta para tornar uma união de facto num casamento para toda a vida, passe a expressão, são pequenos acertos de capital entre os dois mundos. Nesse sentido, esta CES2006 foi diferente das anteriores: uma onerosa operação de charme com vista a amaciar os corações duvidosos dos barões dos media e entretenimento.

Explicada a presença de “gente de Hollywood” numa feira de electrónica de consumo, falta perceber porque foi desta vez Bill Gates eclipsado enquanto estrela da festa, cedendo o trono aos homens que chefiam empresas de serviços. Presentes pela primeira vez entre os gigantes do sector como a Sony, a Samsung ou a Toshiba estiveram a Yahoo! e a Google. Os seus modestos “stands” de principiante foram porém dos mais procurados pelos 130.000 visitantes da feira, provando a fixação do público nas duas marcas.

A resposta, deu-a Eric Schmidt, o veterano CEO da Google, num encontro informal com jornalistas: «somos na verdade o ‘enabler’». Tradução: o que é importante é levar os conteúdos ao público, não importa como nem por onde – e essa tem sido a área de especialização das duas empresas, que são a par da eBay e da Amazon as que melhor conhecem o público da Internet, as suas necessidades, métodos e idiossincrasias. Além, claro, de terem um enorme prestígio entre os mil milhões de internautas de todo o mundo.

Um prestígio sem paralelo, que está a tomar proporções histriónicas. Cada gesto ou intenção da Google ou da Yahoo! tem como imediata consequência um turbilhão de notícias, comentários, investimentos e desinvestimentos. Até as mais simples arrumações domésticas, como o recente pack.google.com, merecem uma cascata de elogios e suscitam a admiração de um público enfeitiçado pelo poder conferido pela rede: não passa de um processo de empacotamento de diversos serviços do Google e alguns parceiros numa única instalação, mas foi recebido como mais uma “grande novidade”.

A novidade está sobretudo naquilo que Page, Brin e Schmidt (pela Google) e Semel (pela Yahoo!) não revelam, ou revelam a conta-gotas. A loja de vídeo “online”, que começou disfarçadamente como um serviço de pesquisa dentro de programas de televisão, é talvez o melhor exemplo. Quem mais, senão o Google, poderá montar o negócio que falta aos produtores de programas como o CSI ou o Survivor, que é vender os episódios requentados para uma audiência potencial de mil milhões de clientes, a menos de dois dólares a peça?