Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

14 de dezembro de 2004

Mercuro-cromo

Esfalfada da corrida desenfreada para fugir ao cárcere, parou na beira da estrada para recuperar o fôlego; das mãos pendiam-lhe, a balouçar, pedaços de arame farpado, a rede na qual se envolvera voluntariamente até as farpas lhe terem ferido a alma em múltiplas, inúmeras chagas, começando aí o calvário do qual fugia sem parar há muitos dias e muitas noites. Sacudiu o torso como um cão a sair da água e mais metal retorcido abandonou os seus pulsos, volatilizando-se antes de chegar ao chão. Deixou-se cair na tépida e reconfortante erva que ali havia e descansou, contemplando contente o céu infinito onde cada estrela lhe dizia “paz”.

Subitamente foi acometida de espasmos horríveis que não compreendeu. Levantou-se procurando respostas. Não as encontrou até reparar nos pulsos pintados de vermelho-vivo. Então compreendeu que o aço de que se vira livre deixara para trás feridas às dezenas, pequenos e quase invisíveis rasgões; a comichão era tão-somente o efeito da erva verde no contacto com as feridas. Então deu as boas vindas à dor. Esta confirmava a sua libertação. Recomeçou a andar em frente, agora segura do caminho, em passo balbuciante mas já ritmado. Foi então que à sua frente se desenhou como que por magia um oásis de mercuro-cromo.