Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

6 de maio de 2007

"Metro" de Almada: o princípio do fim de Maria Emília Sousa

Em Almada as eleições são em regra muito simples: a maioria vota “na” Maria Emília, a minoria envergonha-se. Conheço gente simpatizante dos partidos do centro que nem quer ouvir falar de Maria Emília, tal é o desalento. Até hoje, para quem se preze, política em Almada é um desperdício: ela tem a câmara na mão e o concelho na mão, constituindo um daqueles casos de autarcas com estatuto de elevada competência que se candidatam pelo PCP.

Deserdada pelas chefias partidárias por ser um “esforço inútil ” defrontar Maria Emília, a política local ficou entregue a combativos históricos e jovens oportunistas — o que, desconfio, está prestes a mudar.

Maria Emilia, tire-se-lhe o chapéu, conseguiu domesticar um concelho com tudo para ser um caos urbano. Almada, que desde tempos imemoriais foi uma urbe independente, madura e com vida própria, tornou-se a partir dos anos 60 também num importante subúrbio da capital. Com os estaleiros da Lisnave e o crescimento das classes médias afluiu o dinheiro e o cimento. A “descoberta” da Costa de Caparica e a conquista dos tempos de lazer por parte de um operariato bem pago fizeram o resto: dinamitaram o que poderia ter sido uma região ainda assim bonita. O crescimento desordenado dos anos 80 e 90 criou uma malha incaracterística, cosendo com macadame e “arquitectura” pato-bravista a ruralidade interior com a urbanidade litoral.

A mão de ferro de Maria Emília travou o pior e usou bem as injecções de capital para limpar o que era possível. Cada lamento dos imperiais do cimento e do “desenvolvimento” é uma medalha no peito da “presidenta”. O Fórum Almada foi por ela bem negociado: a cidade de Almada enriqueceu-se com um espaço que faz concorrência a qualquer outro do género em Lisboa, batendo com a sua escala humana espaços labirínticos como o do Colombo, e conseguiu que no lugar do antigo Pão de Açucar não ficasse o buraco urbano que as forças do “progresso” e do “desenvolvimento” adoram deixar como presente aos autarcas comidos por parvos, mas uma zona urbanizada e com o trânsito resolvido.

Mas até Maria Emília comete erros. E o erro do eléctrico da margem Sul, pomposamente chamado de Metro de superfície como hoje manda a sapatilha da moda, fez o que nenhum seu pequeno erro até hoje houvera conseguido: despertou a letargia e chamou a atenção dos oposicionistas. É uma brecha de peso na muralha emilista, é agora ou nunca.

Quando Manuela Ferreira Leite escreve no Expresso a questionar com seriedade as opções da gestão de Maria Emília, penso ser um sinal eloquente dos novos tempos. Tempos por que suspiram todas as forças políticas do concelho à excepção óbvia do PCP.

Que bem pode lamentar cada semana de atraso nas obras: se o “metro” tivesse ficado pronto no tempo prometido, é provável que o rumo social tivesse sido outro e hoje havia passageiros e hábito de uso. Mas Maria Emília hesitou. Por questões técnicas, ou por razões lá suas, hesitou. Pelos vistos, hesitou demais. Nem parece dela. Agora, cada carruagem vazia — e não há ninguém para as encher — é um passo para o fim de Maria Emília.

A única dúvida chama-se Margueira. Ao contrário do que escreveu Ferreira Leite, o “metro” de Almada não resultou de «alguma promessa eleitoral no auge do desespero» Até hoje a olímpica Maria Emilia não precisou de promessas irreais para convencer o eleitor, bastava-lhe a obra. Esse derradeiro cartucho da promessa tem Maria Emília guardado na margem direita da cidade, ali ao lado de Cacilhas. A Margueira e os seus negócios, negociatas e interesses, é o naipe de trunfo das próximas autárquicas.

Act: os atrasos são péssimos porque o desenvolvimento é dinâmico — e no caso almadense a dinâmica tem sido muito rápida e até desconcertante. O troço que está a obrigar ao gasto de milhões para meter os carris a atravessar a avenida histórica de Almada (que nunca mais será a mesma, com muitas árvores a menos, irreconhecível) só terá viabilidade económica se os autocarros de e para Cacilhas desaparecerem. A única linha que poderia, nos dias que correm, fazer sentido é a linha que tem bocados prontos há anos mas cujas ligações não avançam e não se percebe porquê (qualquer coisa sobre a Ramalha): é a linha que liga Pragal e a sua estação ferroviária ao polo universitário que a Nova instalou no Monte da Caparica. Uma só terá passageiros se a alternativa, que tem uma oferta bastante boa, for gradualmente desaparecendo (como parece ser a intenção, fazendo-se a renovação do negócio privado à conta do erário público). A outra parece ter interesse. O troço inaugurado é que ninguém percebe para que serve.