Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

16 de março de 2007

Miguel Gaspar reforça Público (que deu prejuízo de 10 milhões)

As duas notícias são de hoje. Miguel Gaspar demitiu-se esta quarta-feira do Diário de Noticias, que dirigiu interinamente durante as poucas semanas de transição entre as direcções de António José Teixeira, suspensa, e a que formalmente assumiu esta semana, de João Marcelino.

Segundo a Meios & Pubkicidade, Gaspar vai coordenar a secção Mundo.

Tem isto algum significado especial?

Não me parece. Miguel Gaspar é competente e tem uma boa escola, mas não está sozinho: entre os editores-executivos do Público há mais gente competente. O problema do jornal não passa pela falta de mão-de-obra qualificada.

O problema do jornal é a sua identidade num período de mudança como o que vivemos. Depois de ter apresentado prejuízos de 3,19 milhões de euros em 2005, subiu em 2006 a fasquia para os 10,3 milhões de euros — duplicou o prejuízo (mesma fonte).

A Sonaecom associa, correctamente, os prejuízos à redução do mercado da Imprensa e à concorrência dos produtos indistintos (os gratuitos). Também os despedimentos custaram uma parte significativa desse prejuízo, com as indemnizações pagas a cerca de 90 pessoas que sairam. Aliás, emagrecer a despesa é a medida anunciada pela administração, ou não fosse esta uma equipa de gestores modernos e liberais que buscam “um nível de rentabilidade aceitável”, o objectivo sem dúvida primordial e indicado para leit motiv de um título jornalístico…

(Eu não leio assim: leio como recado claro da administração à direcção: o jornal pode vender 20.000 e ter uma excelente rentabilidade.)

A identidade do Público, é aí que reside a chave. O actual alinhamento editorial do jornal servirá interesses, dizem, mas não tem representatitivade nem ecoa no público (o que um P faz…). Há três posições defensáveis nos alinhamentos: ou se é situacionista com algum distanciamento, ou se é oposicionista credível, ou se trabalha para nichos claros (e se têm equipas e meios dimensionados para tal). O Público de José Manuel Fernandes (e seu corpo editorial que marca o tom do jornal) trabalha para um nicho claro com uma equipa e meios dimensionados para um jornal oposicionista credível (lugar que já ocupou e para o qual tem vindo a trabalhar o Correio da Manhã e, em breve, palpita-me, trabalhará o Diário de Notícias de Oliveira/Marcelino).

Sei que Gaspar fará o jornal melhorar um pouco (tanto quanto uma boa peça melhora um puzzle). Valha-nos isso.