Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

2 de dezembro de 2004

Mudança de discurso (mete a terceira, caraças)

«Eu sei, meu amor, que provavelmente não serão estas as palavras mais românticas que se devem sussurrar aos ouvidos de uma mulher deslumbrante como tu, sobretudo quando estamos dentro dela a fremir espasmozinhos desdenhosos de prazer masculino. Contudo são estes os encadeamentos caóticos que se atropelam na minha cabeça. Não me perguntes porquê. Perdão, meu amor, perdão. Quando faço amor contigo, perco-me de felicidade. Quando, de olhos fechados, me venho dentro do teu corpo frágil de anémona, sinto que não é apenas o meu sémen que aglutinas, mas toda a estrutura do meu ser. Receio que qualquer dia, ao unirmos os nossos corpos, o teu sexo húmido me sugue numa aspiração de trompas e que fique para todo o sempre preso no teu interior. Se calhar, o facto de ter estado tanto tempo de cabeça para baixo não ajudou muito. Gostava de saber, meu amor, como é que fazes para te pregares assim ao tecto numa solene abertura de pernas. A tua imprevisibilidade é fascinante. Lá fui eu, numa procissão de fé, buscar uma mesa para poder beber em cima dela o líquido incolor que pingava dos lábios da tua vagina para o mosaico de tacos do soalho da sala.»

( João Pedro Costa in Ruínas Circulares )