Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

11 de dezembro de 2006

No primeiro milhar

Um marco na minha história pessoal. Na semana passada descobri que passei a fasquia do milhar. Com a revalidação deste ano, a minha carteira profissional passou a ter o número 723 (link). Era o 1.228. O meu primeiro número, há 26 anos, foi o 1.400 e qualquer coisa (não recordo a dezena). Uma actualização de ficheiros, ainda ao tempo de Dona Vanda e do Sindicato a gerir as carteiras, atirou-me para o 1.228 — uma estranhíssima singularidade, pois que fiquei com o antigo número do meu primo, o João Querido Manha, baixado por sua vez para a casa dos 900. Ainda me lembro de nós dois na Redacção da Duque de Palmela a mirar e remirar as carteiras profissionais, incrédulos.

De 1992, mais ou menos, até 2005 não renovei a carteira, por simples despreocupação (ou desleixo, não recuso o termo). Se o tivesse feito, disseram-me na CCPJ, no ano passado já andaria pelos 700, o que me atirava agora para a casa dos 600 ou menos (o João está com o 552). Não importa: não tenho pressa nenhuma!, respondi.

O baixar do número não tem realmente significado além de marcar a passagem do tempo.

Neste quarto de século tudo mudou no jornalismo e em torno dele. Tudo, excepto o código e a ética. Haverá menos gente consciente de ambos? Não sei. Não tenho a certeza. Do que tenho a certeza é que código e ética também não escapam à revolução em curso na web social: parágrafos novos surgirão e outros serão revistos. Jornalista que não dependa de um empregador mas sim de si próprio para exercer a actividade (situação que a web permite e potencia, para não dizer exorta) terá de ser capaz de se relacionar com a fonte de receitas que a publicidade constitui de uma forma diferente da actual. Isto é: em vez de simplesmente proibir todo e qualquer tipo de contacto, como hoje, as regras terão de indicar com clareza e transparência como deve este ser feito para permitir a actividade sem violar a essência ética. Não o fazer será abrir a porta a situações dúbias.

Um exemplo: sem ser sequer preciso levar a lei da Imprensa ao extremo (ler alínea a do artigo 3º da Lei nº 1/99, em vigor, e espreitar as alterações em discussão, no extinto-mas-em-vigor Instituto de Comunicação Social), é uma violação eu registar-me no programa do Google para os anúncios AdSense. Já não o seria se houvesse um intermediário a registar-se. E em rigor teria ainda de ser ele a fazer o copy+paste do código para dentro do template (lendo a lei, uma pessoa fica com dúvidas sobre se um jornalista que exerça num blogue ou mesmo num site noticioso está autorizado a colocar links ou permitir que outros o linkem… pois é ler o parágrafo 2 da supracitada Lei). Ridículo.

Ah, mas da definição do que é um OCS nestes tempos 2.0 e do futuro da profissão de jornalista só se deverá falar em Portugal dentro de uns três anos… com sorte.

Voltando ao aqui-agora: já sou o 723. Com o mesmo orgulho em ser jornalista que tive, rapazito de 20 anos, ao receber o meu primeiro número da carteira de estagiário de primeiro ano.