Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

11 de fevereiro de 2008

O triângulo Microsoft-Yahoo!-Google ou a questão das consolidações

A proposta de aquisição da Yahoo! pela Microsoft foi já amplamente noticiada, bem como o seu motivo principal aparente: enfrentar a Google. Mas este triângulo tem mais que se lhe diga.

Para começar, a proposta de aquisição tem todos os contornos de uma operação exclusivamente financeira e não apresenta um único sinal de que a empresa compradora tencione mudar ou inovar.

O primeiro reflexo disto é que, embora permaneça notícia porque interessa ao mercado, a proposta de aquisição não tem nenhum apelo para o consumidor, bem pelo contrário: vê desaparecer uma das mais fortes marcas a que se habituara na Internet e não poderá deixar de se interrogar sobre o significado disso.

O segundo reflexo é que o suposto alvo — a Google — pode “responder” com uma facilidade da ordem do bocejo. Basta-lhe ver quanto tem na carteira (muito, imenso, colossalmente muito) e cobrir a oferta para anular os efeitos do anúncio da operação.

Foi o que a Google, Inc fez alguns dias volvidos, os suficientes para deixar Steve Ballmer pular algum tempo de excitação e os accionistas da Yahoo! terem uma alegria. O CEO da Google, Eric Schmidt, telefonou ao CEO da Yahoo!, Jerry Yang com uma oferta que este não pode deixar de avaliar.

E pronto.

Seja qual for o sector de actividade, os movimentos de consolidação de capital são tão interessantes de seguir como uma prova de Fórmula 1: os técnicos e os especialistas vibram com os pormenores microscópicos que escapam a todos os outros cidadãos, por mais cafeinados que se apresentem.

Em que ficamos?

A Google fica descansada no seu canto à espera dos próximos movimentos. E quando eu digo descansada, quero dizer descansada: com todo o tempo do mundo para continuar a dedicar-se às suas coisas, sem precisar de perder trinta segundos que sejam com a suposta rivalidade que a Microsoft lhe iria mover por aquele lado.

A Microsoft fica pior ainda do que estava: às suas próprias contradições, que a impediam de dar passo na direcção do futuro, soma-se agora a terrível espera — isto é, mais inacção. O anúncio do negócio paralisou os seus accionistas e paralisa a definição da estratégia. Isto pode demorar meses. A Yahoo! pediu tempo para responder e, mesmo que diga sim, o Departamento de Justiça americano ainda terá de analisar a fusão e dar o seu consentimento. A União Europeia quererá ter também a sua palavrinha, como é da praxe.

Só para a Yahoo! a proposta de aquisição é um ponto de não-retorno e uma mudança completa — e imediata. O futuro da empresa está agora bem desenhado. Tem duas opções, apenas duas e nenhuma é realmente simpática. Pode engolir o orgulho, aceitar a derrota nos mercados da pesquisa e da publicidade e agarrar a oferta da Google para continuar enquanto empresa de ponta, ainda que condicionada pela “irmã” maior que a controlará totalmente. Em alternativa engole muito mais que isso: deixa aniquilar a sua imagem hi-tech, consentindo numa narcotizada fusão com os colarinhos brancos de Redmond.

Yahoo! como poster-boy reluzente da Google, ou Yahoo! como subsidiária parda da Microsoft, eis o que Yang tem de decidir agora.

Para nós, na realidade, tanto faz: subalternidade ou desaparecimento, seja qual for a resposta de Yang a Internet perderá rivalidade, perderá competitividade, perderá força de inovação — e perderá uma centelha de brilho.