Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

4 de maio de 2006

Luis Carmelo reagiu a uma referência crítica que eu fiz ao seu Miniscente (Sinal dos tempos). A referência era: irritantemente pesado.

O solilóquio de LC é tão mais curioso na medida em que revela o desconcerto das “conversas” mantidas no espaço conversacional a que convencionámos chamar blogosfera. Foi assim. LC escreveu no primeiro post que se fala «mais sobre o que os blogues enunciam do que sobre objectos autónomos e livremente observáveis no mundo vivido. Nada de mal, claro. Apenas sinal dos tempos». Eu citei e liguei o post por o achar curial e a referência ao peso do Miniscente era claramente secundária e marginal, uma mera chamada de atenção ao webdesigner de Carmelo. Que, de resto, estava a operar uma mexida no site que reflectiu — e de que maneira! — a minha observação, embora disso eu nada pudesse saber, claro está.

A reacção, portanto, não ocorreu em função do meu objectivo (relevar a observação interessante de LC): tratou-se de uma resposta cutânea à referência crítica ao peso excessivo do blog. LC traído pelo próprio fogo blogoférico que tinha criticado e do qual gosta de mostrar alguma distância. (Sem carga alguma, na verdade acho que eu aceito isto melhor que ele, que parece ter pouco humor, apesar de coordenar um curso intitulado O Humor no Ocidente.)

LC desvaira por aí fora, discursando sobre um mundo (um novo espaço comunicacional com regras específicas, como todos os outros) com o qual mantem uma relação ambígua (aprende e usa umas regras, mas não gosta delas nem de as praticar) como se assim dele se pudesse apropriar para suprimir as ambiguidades. Com toda a legitimidade o faz. Mas está errado. O texto é bom e outras dúvidas que levanta são pertinentes, pelo que recomendo a leitura com a seguinte ressalva; a confusão de Carmelo entre o peso, a funcionalidade, o design (que ele não considera uma arte com equivalência, não podendo ambicionar a mais que uma virtualidade interessante dessa chateza chamada modernidade…, condenado a servo da usabilidade), o instrumento e os “encantos da instantaneidade tecnológica” deve ser encarada com benevolência.

Escreveu: «no fundo, com toda a legitimidade, para Paulo Querido um blogue deve estar sobretudo preparado para a instantaneidade do ciber-olhar, isto é, deverá comportar-se como aquele bom anfitrião que cede ao visitante uma entrada meteórica e fulminante. Qualquer sobrecarga um tanto esteticizada, para esta concepção, confundir-se-á sempre com o anátema do “peso” e acabará por coincidir com uma espécie de inútil barroco» (link).

Ora, uma sobrecarga esteticizada torna-se ela própria em discurso, em afirmação, logo em comunicação (não interessa aqui se é efectiva). É a mensagem. Nada a opôr. (Não era o caso do Miniscente, que vive da palavra e não da estética gráfica.)

Corrigindo LC — a quem aproveito para agradecer a educação no trato, coisa que rareia no inflamatório meio ciber, e informar que não pretendo espoletar polémica nem fulanizar este assunto nem, mesmo que me escape aqui e ali o amaciador, manifestar agressividade ou desrespeito –, não acho que um blog se deva comportar como bom anfitrião nem que ceda uma entrada meteórica e fulminante. A instantaneidade do ciber-olhar é diferente, opera-se sobretudo na leitura: a esmagadora maioria dos leitores lê os textos dos blogs na diagonal (quase sempre treslê), a velocidade de consumo é realmente enorme, mas tal deve-se à (in)capacidade do texto (na forma ou na substância) para cativar o olhar, não é condicionado pelo tempo que a página e os seus elementos gráficos e técnicos demora a carregar (e era a isso e só a isso que eu tinha aludido).

Acho, é verdade, que um blog deve ser ele próprio e, como tal, integrar-se no meio respeitando os mínimos. O Miniscente estava claramente para lá dos mínimos, pesando a sua primeira página quase 3 MB, vindo os elementos de diversos sítios na rede, demorando mais de dois minutos até aquilo que LC queria que eu, o seu leitor, visse se materializasse perante os meus olhos. Depois da renovação entretanto operada (e, repito, a minha crítica em nada contribuiu para a mudança, que já estava em curso), o Miniscente pesa um terço do que pesava antes. Por outras palavras, materializa-se aos olhos dos leitores três vezes mais depressa.

Sem discutir as opções gráficas, que não fazem parte deste filme, a escrita de LC ganhou a virtude de ser lida mais confortavelmente (e economicamente) pelos seus leitores regulares e ganhou a capacidade de chegar a novos leitores.

Não vejo onde é que “este mundo” é mais instrumental que “outro mundo”, não nomeado por Luís Carmelo quando escreveu: «Este tipo de “corrida” a que P. Querido fez clara referência (“irritantemente pesado”) faz parte de um mundo eminentemente instrumental – à neo-Dziga Vertov – que se alimenta da aparente contradição entre a tradição da poética de origem romântica e a tradição da funcionalidade própria da cultura material também moderna (este modo de pensar imagina que a herança do ‘logos’ e do ‘mito’ se excluem mutuamente).».

O bom senso de adequar o conteúdo ao meio e ao público é uma corrida? Não o creio.

Todos as transmissões comunicacionais — incluindo a transmissão de pensamentos que será, provavelmente e por definição, a menos dependente de tecnologias — usam códigos de transmissão. Ter um blog mais leve ou mais pesado é apenas um código de transmissão. Luís Carmelo está no direito de não querer saber para nada dos códigos de transmissão. Como escritor, limita-se a escrever — alguém está lá para as tarefas de codificar a transmissão: definir o formato do livro, paginá-lo, escolher a capa em função do conteúdo e do público (suposição minha, há várias formas) e ir ao encontro do mercado algures. Como blogger pode delegar, ou simplesmente desdenhar, como milhares dos seus pares bloggers, a codificação em terceiros. Não deve, penso eu, perorar sobre codificações que são para ele mistério do qual se auto-exclui à partida.

Uma rectificação final: tendo em conta a ignorância acerca das literaturas em voga entre as minorias cada vez menos subterrâneas da networking culture, é natural que Luís Carmelo a tenha ouvido/lido pela primeira vez nessa fonte, mas não, a autoria da expressão “poética do código” não é atribuível a João Nogueira. O Google é seu amigo.