Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

2 de dezembro de 2004

O Casal Perfeito

O Luís diz que sempre o fascinou a relação Sartre-Beauvoir, “picando” o Um Amor Feliz de Pandora.

Confesso que a mim não fascina pêvas. Ou não enquanto casal. Relação de amizade muito profunda construída a dois, sim. Chamar a isso amor… Tenho as minhas reservas.

Escreveu Simone: «le couple heureux qui se reconnaît dans l’amour, défie l’univers et le temps; il se suffit, il réalise l’absolu».

A teoria é bela. Mas quando passamos ao oh yeah baby, come, come, give it to me a teoria desfaz-se aos meus olhos porque eles dois não foram absolutos (mas a malta desculpa isso; e eles, perguntaram-lhes se desculpavam iso um ao outro, aos dois juntos? Cheiro a resposta, mas não digo nada).

Só concebo o amor enquanto relação de fidelidade sentimental estrita; no espaço de um casal há lugar para as duas pessoas evoluirem sozinhas mas não para manterem em paralelo relações, paixões e afins — pelo menos não os tipos de amor carnal, (a)palpável, o amor dos sentidos, o amor da reciprocidade, o amor da cumplicidade. Claro que cada um pode — e deve! — ter os seus ídolos intelectuais, as suas admirações pessoais (e os seus ódios de estimação), amigos e amigas com quem desenvolvem relações de respeito e admiração. Natural, saudável, pretendido até, para combustível das noites longas do Casal. Há no entanto uma fronteira, um point of no return: ultrapassado esse (e cada um define o seu em função da gasolina com que se atestou para iniciar o Casal), o Casal desmorona-se. Podem continuar amigos; amores não, certamente. (Well… Perdoar é uma virtude — quando possível e putativamente aplicável em situações de evidente erro e consequente arrependimento. Mas depende também do momento, das pessoas, da pessoa.)

Admito que o compromisso seja possível (como escreveu o Luís, há a imperfeição do homem e da mulher) e resulte em relações “admiráveis” como a de Sartre e Beauvoir (que, já agora pergunto, é admirada pelas pessoas estritamente ou pelas pessoas terem sido os escritores/pensadores com a importância que tiveram? Até que ponto a mediatização de um casal, ou de um dos seus membros, funciona como poderoso ímane a perturbar os campos magnéticos dos sentidos dos praticantes e da análise dos voyeurs?).

Mas a mim mais depressa me apanharam (sublinho o tempo verbal) numa relação imperfeita do que nessa nobreza do ai que casal tão bonito que nós somos, filha, deixa-me ir ali dar uma foda naquela gaja. Esta é a verdade dos meus factos da vida. Continuo a acreditar n’O, e a procurar O, Casal Perfeito: consideração, confiança, conjugação, carinho, carne — e fidelidade sem palavras. Se o alcanço ou não em tempo útil de vida, a ver vamos. A espaços, sei que funcionou. Na verdade tudo isto é apenas uma questão de Tempo.