Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

21 de março de 2007

O dever do governante a defender a sua opinião

«É dever de um governante bater-se pelas suas convicções e sustentar publicamente o debate que suscita», defende o Ministro de Estado e da Administração Interna, António Costa, no espaço de opinião do MAI (esta página de opinião, em A nossa opinião — onde também assina o Secretário de Estado Adjunto e da Administração Interna José Magalhães.

Sem dúvida. Não era uma das principais atribuições de um governante, cujo tempo deveria ser dedicado em exclusivo à governação. Mas passou a ser. Numa sociedade hiper-mediatizada a política faz-se ainda mais pela simbologia do que antes. Um governante tem, hoje, não apenas o direito mas na minha opinião o dever de defender as suas ideias e o seu trabalho no espaço público.

Até por outra razão. A comunicação social (apesar de tudo) tem regras deontológicas e os ataques e críticas às posições e acções dos governantes passam pelos crivos, chegando à publicação com um bom grau de confiabilidade. Pouca gente terá consciência que um jornal “de escândalos”, como por exemplo o Tal & Qual foi, não publicava uma única reportagem quente sem a passar por uma bateria de advogados que esmiuçavam o texto e confirnavam as informações na medida do possível. Nenhum editor deixará passar uma reportagem sem a passar por uma série de testes. Não é um método perfeito, longe disso, mas oferece algumas garantias. Mesmo os cronistas de jornal têm em geral um cuidado com o rigor não extensível aos seus blogues (os que os têm) ou às conversas mundanas. Bem, pelo menos em geral… Não estou a pensar agora nas excepções.

Ao invés, na comunicação pública sem regras outras que não a liberdade de expressão e os direitos individuais, diminuem as garantias de fiabilidade do que é escrito (um eufemismo para não há garantia outra que não a reputação do autor). É claro que não estou a afirmar que os autores dos blogues são todos uns facínoras mentirosos, penso mesmo o contrário (a minha mulher acha que eu sou demasiado bondoso com a raça humana, by the way). Mas só a inocência de um recém-nascido impedirá alguém de reparar que alguns deles omitirão perseguir interesses pessoais e partidários e, com mais ou menos escrúpulos, não hesitarão em recorrer ao manuseamento da simbologia (um eufemismo para mentir) para torpedear o adversário de sempre ou de ocasião, fazendo o papel de anjinhos que só estão a “denunciar” nos seus “modestos” blogues, etc.

Os media estão sujeitos à propaganda e sujeitos a intenso bombardeamento dela pelos diversos poderes e por manipuladores encartados (o clássico caso de estudo de Paulo Portas, na classe política) e por isso desenvolveram mecanismos de resistência. Já os blogues estão perigosamente perto da propaganda.

Os jornais, rádios e televisões perderam o exclusivo da boataria. Para o cado de ainda não terem percebido, vejam se entendem de uma vez por todas. As capacidades da web 2.0, social, e ptá ptá não são maravilhosas só num sentido.

Neste quadro é natural, é até desejável, que os governantes “desçam” ao nivel do povo e usem os blogues para denunciar os ataques que lhes são dirigidos. Pelo menos aí, não poderão ser acusados de manipular o serviço público de televisão.

(Caríssimo José Magalhães, da minha parte palmas para a escolha da plataforma editorial da opinião do MAI. O código aberto do WordPress é efectivamente a melhor opção e o domínio próprio revela não-compromisso. Que diferença para o caso da viagem à China do Primeiro Ministro.)