Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

10 de abril de 2007

O lamaçal

Uma parte substantiva da opinião pública foi atrás do seu próprio interesse no caso das habilitações de Sócrates. Confundindo fornecedores de pistas (vulgo: fontes) com jornalistas e textos especulativos com notícias acabadas, exultaram de alegria quando o Público pegou no assunto e fez uma “investigação”. O Público acabou por conferir a legitimidade que faltava a este movimento e um fait-divers virou tema sério.

O melhor que se pode dizer sobre a investigação do Público é que reflecte a curteza de meios de que o jornal disporá: consistiu em conferir o que o único fornecedor de pistas (até ontem, presumo; a peça de Ricardo Costa, hoje na SIC, parece já ter outras origens) tinha publicado no seu blogue, Do Portugal profundo, sem citar a fonte (do que a fonte se queixa, naturalmente). Talvez por o resultado da investigação ser tão pouco, mas havendo uma (forjada) expectativa no seu público, o jornal compôs o ramalhete com a opinião. Descontando outras, menores, na figura do seu director.

Leitura política, até ver: em vez de ser fustigado pelos jornalistas, em dossiers como a Ota e os impostos, no momento em que está a meio do seu peculiar mandato com maioria absoluta e sondagens inacreditáveis de boas, José Sócrates passará a entrevista desta quarta-feira a “responder” às “dez perguntas mais importantes” que o Público lhe coloca sobre porque razão o seu currículo andou em bolandas.

Relegados para segundo plano, os líderes dos partidos da oposição cruzam os braços e reduzem a expectativa a isto: que o assunto corte o mais possível na popularidade de José Sócrates.

Leitura não-política: Paulo Gorjão chama a isto, muito justamente, de inversão de ónus da prova. Na dúvida, o “acusado” tem de provar que não cometeu nenhuma ilegalidade.

«A comunicação social apresentou um conjunto de dados que, por si só, nada provam. Porém, a verdade é que ao fazê-lo contribuiu para que se instalasse a suspeição» (leitura obrigatória 1)

Leitura mediática: as “dez principais perguntas” incluem pérolas de importância como “Qual o motivo por que não apresentou, por exemplo, a sua monografia de Projecto e Dissertação, tese final do curso?”;

o Público acha importante o seguinte: «o reitor Luís Arouca disse por várias vezes que só conheceu Sócrates quando este ingressou na universidade. No entanto, em trocas de correspondência anteriores, Sócrates despedia-se “… do seu, José Sócrates”. Portanto, sai a pergunta 8.1 Quando é que Luís Arouca e José Sócrates se conheceram?

Estou de acordo com Eduardo Pitta, aproveito portanto para informar o Primeiro Ministro que por mim, só precisa mesmo de perder uns segundos a explicar a trapalhada no portal do Governo:

«Dessas dez perguntas, a décima é de facto relevante. E merece resposta. As restantes são simplesmente fúteis» (leitura obrigatória 2, leitura obrigatória 3 )

Nem toda a opinião pública embarcou neste lamaçal.