Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

8 de dezembro de 2005

O lápis, outra elegia

O LÁPIS, OUTRA ELEGIA. Quando era puto, as aulas começavam com uma caixa Viarco com seis lápis alinhados a entreverem-se as cores por uma janela aberta no cartão. Eu não ligava por aí além aos lápis; o meu fascínio colorido eram os lápis de cera. A adolescência e os namoricos acentuaram-me o gosto pela tinta permanente. Gostava de sujar os dedos. O meu pai tinha uma Parker de encher e havia lá por casa tinteiros. Era fascinante encher a caneta, ver a tinta escorrer à medida que escrevia. Um ritual (continuo a ter sempre por perto um ou dois tinteiros, ainda que não use).

Sou de quando chegaram os feltros. Pintavam magia. Eram potentes. Os professores odiavam, alguns obrigavam na aula ao uso dos lápis proibindo os revolucionários feltros. Tal castigo dava na altura às “canetas de feltro” uma aura de proibido que casava maravilhosamente com a puberdade, a rebeldia e a modernidade.

Não foi de repente que as letras se me meteram na pele. Chegaram devagar. Como os bons vícios. O som da máquina de escrever foi substituindo os silêncios até à madrugada; corrigia a feltro e anotava a feltro. Adiante, que isto é só para confirmar porque o lápis nunca se me ficou memória.

Não sei como começou a minha relação especial com os lápis, mas sei onde e porquê. Nos supermercados frente às prateleiras de papelaria & utensilagem escolar, e ali estavam as lapiseiras, minas, borrachas e fabers e staedtlers. Porque os maquetistas da Gazeta dos Desportos, em especial o Virgílio, que era um artista, abriam cada página a lápis, o lápis era a chave da imaginação e os diagramas eram maravilhosos quadros em gestação — depois assassinados pelos feltros largos e básicos, destinados aos olhos cansados dos tipógrafos, profissionais que liam as indicações para as tornarem na primeira página que, única então colorida, se destacava orgulhosamente das bancas no dia seguinte.

Passei a comprar lápis e lapiseiras. De 0,5 mm com borracha no topo. De 2,0 mm com borracha interior e afia escondido. Porta-minas. Borrachas. O seu uso nas anotações na entrevistas contribuiria para acentuar a diferença: eu era um jornalista e não um mero mortal. Captava a admiração (ou a estupefacção) de entrevistados e camaradas.

Tornou-se um objecto de referência. Muito pessoal. Numa loja de bricolage um dia redescobri os lápis que os pedreiros usavam quando eu era puto e se acrescentaram quartos à pensão. Lápis de mina escura e grossa, capa vermelho sanguíneo, que Mestre João — o homem que sabia erguer uma parede a direito e que vinha sempre depois de jantar ou aos fins de semana o dia todo — sacava da orelha para, no mármore como nos tijolos, traçar as linhas de corte com um esquadro de ferro. Comprei uma dúzia.

Eu e os meus lápis. Seja reunião colectiva ou sessão de início de projecto, saco do “Caderno Diário” ou do Bloco A3 “cavalinho”, conforme a ocasião, e alinho os lápis: o amarelo e preto dos Staedtler Noris para a escrita normal. O vermelho dos Faber quando preciso de um pouco mais de garra entre os dedos, as ideias estão a entrechocar-se. Se é um esboço de página talvez prefira a lapiseira de 2 milímetros. O lápis de mercearia e o lápis de pedreiro ficam de reserva para os traços gordos e enérgicos.

Duas pessoas podem ser diferentes em praticamente tudo o que a vida traz e ainda assim elegerem os lápis uma vez na vida. Mesmo que a relação de cada um com os lápis — essa palavra única, sem plural — seja diametralmente oposta. Devo este texto a Pedro Mexia e a O lápis, uma elegia que publicou dia 7 de Dezembro no DN.