Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

18 de setembro de 2004

O Luís, o blogging, JPP, a Microsoft e eu

Ontem recomendei algumas leituras, entre elas o artigo de José Pacheco Pereira no Público de sexta-feira intitulado Media-esfera, Blogosfera e Atmosfera. Referia no meu texto que a «belíssima análise» era «desgraçada» por uma referência final a um produto-fantasma da Microsoft, o MyLifeBits. A palavra desgraçada era obviamente caricatural e desajustada, pelo que fiz uma emenda nos comentários a essa entrada: Levemente desastrosa.

Muitas vezes não encontro logo o termo certo. Acho que nos acontece a todos. Talvez não. A mim acontece. Sem dúvida por deformação profissional estou habituado a não perder tempo demais à procura do termo certo, o termo que eu queria realmente aplicar. Experimentem trabalhar num jornal diário em que o texto devia SEMPRE estar pronto ONTEM porque a edição está sempre atrasada (num semanário não se foge tanto a esa regra como se podia pensar: basta referir que estou a escrever os meus artigos para o Expresso com oito dias de antecedência porque a Única fecha muito mais cedo que as outras pasrtes do jornal). Perceberão porque me habituei a escrever o termo que estiver mais à mão correndo o risco de não ser o que eu queria realmente empregar.

Em termos de jornal não tem consequências de maior. Ou por outra, ter até têm: os leitores vão-se queixando do mau Português da Imprensa. Mas os jornalistas não são infalíveis super-homens da palavra. Tão pouco os revisores e copy desks. E o tempo manda mais que as regras.

Agora em termos de blogues é uma chatisse. Dou demasiadas vezes azo a más interpretações e tresleituras. A tresleitura é um dos piores vícios da blogosfera. Por um lado o imediatismo do meio leva os leitores a treslerem. A urgência. Há tanto para ler e tão pouco tempo. Por isso lemos apressadamente — e quando comentamos o que lemos muitas vezes, vezes demais, estamos a comentar o inexistente. Por outro lado os escribas apressados (como eu) levam no toutiço dos escribas cuidadosos (como o Luís) por terem sido descuidados na escolha dos termos ou não terem feito o trabalho de casa convenientemente, fundamentando mal o que escrevem.

Não vou discutir se um blogger tem ou não de fundamentar sempre, com links, citações e referências, os seus posts. Basicamente acho que a maior parte das vezes não tem, pode até ser contraproducente além de limitativo da sua inspiração. Mas muitas outras vezes tem. Ou deve.

Voltemos à vitela tépida. O levemente desastrosa significava que eu achei que a referência final no texto de JPP era má para o próprio texto. Enquanto leitor li o artigo com o meu entusiasmo sempre em crescendo e o parágrafo final foi uma decepção, um balde de água fria. Claro que outros leitores terão tido dissemelhantes experiências de leitura do mesmo texto.

Porque era má?

Porque a considerei desajustada (outros leitores poderão considerar ajustada) e como tal traía (na minha experiência de leitura) um artigo até então muito bom. Desde logo porque os esforços da Microsoft no domínio dos blogues nunca passaram da cepa torta. Há dois ou três anos que a empresa tenta conquistar algum terreno no campo da edição de blogues e coleccionado derrotas. Legitimará isto o meu cepticismo perante a menção do projecto MyLifeBits?

Só por si não. Há o benefício da dúvida. Afinal a Microsoft tem também uma colecção de sucessos na carteira, pelo que se pode sempre esperar que consiga inverter uma situação de mercado com um golpe de rins (ler: boa e frutuosa investigação).

Mas: 1) a análise de JPP é profunda e praticamente toda ela factual terminando com um parágrafo baseado na sua esperança (convicção ?) pessoal; passa do discurso “análise-do-presente” para o discurso “perpectivas-pró-futuro”, coisa que abre sempre uns alçapões na lógica desse mesmo discurso; 2) o MyLifeBits é um projecto de investigação com dois anos de pesquisa (notícia) e uma maqueta mostrada em 2002 pelo investigador, Gordon Bell; só por boa vontade se pode, como JPP sonhou, transpor o futuro-qualquer-que-ele-seja da ferramenta blogue para tal projecto.

O projecto MyLifeBits, bem como qualquer outro do género que surja ou venha a surgir (JPP deu-o como mero exemplo?) visa manter um registo de toda a actividade individual, dos artigos escritos, CD ouvidos, sms enviados e recebidos, chamadas telefónicas, e por aí fora. Tudo o que fazemos em bits arquiváveis, publicáveis e pesquisáveis. Mais que uma visão, é um sonho. A sua credibilidade como projecto roça o nulo. A sua ligação ao mundo bem mais prosaico da publicação digital aqui e agora é igualmente uma miragem. As questões que levanta em campos que vão da capacidade de armazenamento à de processamento, dos aspectos legais à privacidade, para citar apenas a ponta do icebergue, dão uma ideia do que dele podemos esperar — enquanto de alguma forma putativos “sucessores” dos blogues (notícia recente da ZDNet).

Em resumo, e na minha humilde opinião, o MyLifeBits poderá (se alguma vez passar da maqueta, bem entendido) ser uma ferramenta de arquivo individual quando um disco rígido vulgar tiver o décuplo da capacidade moderna e o CPU caseiro 1000 vezes mais capacidade e forem resolvidos os problemas de software que a catalogação de ficheiros coloca — e recordo a propósito que a função de pesquisa refinada prevista para o futuro substituto do XP, nome de código Longhorn, foi retirada do sistema operativo a lançar em meados ou finais de 2006 e não tem data de lançamento; acreditem, não é fácil.

Ferramenta de arquivo individual. Ok. Sempre disse que o meu blogue era o meu arquivo pessoal acessível em qualquer lugar. Mas não é e nunca será o meu arquivo íntimo. É público e portanto incorpora apenas aquilo que de público existe no meu arquivo pessoal…

A relação entre os blogues e o MyLifeBits andará pela relação entre o primeiro invertebrado e o ser humano actual.