Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

30 de março de 2005

O meio é a mensagem

Leio uma reportagem do Diário de Notícias de ontem, intitulada “Revolução da blogosfera pode criar um novo poder”. À parte a (dispensável e feia) vénia ao parceiro de grupo económico, o Sapo – único alojador nacional contactado, segundo o aparente critério de ser o maior em termos de número, embora existam três outros de menores dimensões mas de maior impacto no contexto a que o artigo aludirá sempre, que é o da importância dos blogues -, o conjunto de peças está equilibrado.

mcluhan_fp.jpg A interrogação de fundo, percebe-se, é o impacto esperável do “novo” meio de comunicação. Sorrio e lembro-me do meu encontro com Derrick de Kerkoeve. Como ensinou Marshall McLuhan, o meio é a mensagem.

É curioso verificar que – à parte o interesse prematuro pelo “fenómeno” da “moda” que caracterizou o grosso das peças jornalísticas nos primeiros três anos da blogosfera – os poderes, a começar pelos mediático e político, só se interessam pela blogosfera na medida em que esta poderá, ou não, vir a constituir uma ameaça ao seu domínio.

As opiniões corporativistas dos meus camaradas de ofício são politicamente correctas e obviamente esperáveis, bem como as dos professores de Jornalismo. Mas mais curiais são as opiniões que ressaltam do pré-olhar dos jornalistas autores da peça, que a enfocam numa perspectiva de “novo poder”.

Há um nítido desejo de, seja por que forma fôr, controlar o output dos blogues. Erroneamente considerados como um todo. Acertadamente vistos como um novo poder.

No mesmo dia o atento MatosB colocava questões mais pertinentes. Os “weblogs jornalísticos” estão a cobro da revelação judicial das fontes? Ou só os jornalistas “encartados”? E mesmo se assim for entendido de forma positiva, quando a fonte revela informação obtida de forma ilícita, continua o jornalista a poder protegê-la? (in Atuleirus)

Não era bem isso, ou não era isso que MatosB queria perguntar. Ia mais longe: «Mas para além da questão lançada (liberdade de expressão e protecção de fontes jornalísticas) que, pessoalmente, penso que cessa com o conhecimento pelo jornalista (de boa fé) de que a sua fonte divulgou informação obtida de forma ilícita, o que me pergunto é se os jornalistas estão alertados para o facto de poderem ser manipulados em guerras de informação comercial e contribuirem involuntariamente para campanhas… de desinformação» (idem).

Numa palavra? Não.

Aos jornais, o que os move não é informar de forma isenta, deontologicamente correcta, etc. Aos jornais o que os move é ganhar dinheiro. O que se consegue por duas vias: vender mais papel (ocupar mais espaço no éter radiofónico, encher o chouriço televisivo) e obter mais publicidade. A magistratura de influência (sobre as empresas, uma permanente espada) ajuda na segunda fonte de receitas.

Ao contrário do que se passava nos “bons velhos tempos”, hoje a imprensa (sentido lato) é um campo de batalhas comerciais. Raros títulos escapam a esse devir. (Só me lembro da The Economist, assim do pé para a mão, isto nos títulos mainstream de maior tiragem/influência).

Hoje um jornalista é, na generalidade, um traficante de informações. Na especialidade de dar notícias “correctas” ou deontologicamente “puras” operam cada vez menos jornalistas.

Já toda a gente sabe que é assim – excepto alguns arautos da deontologia (por interesses vários, um dos quais desancar o livre negócio do jornalismo), desencantados da modernidade e velhinhas piedosas.

As questões judiciais interessam-me somente na medida em que deixam ao jornalista meios de dar as notícias. Se não deixam, então desinteresso-me: deixei de viver num Estado sério. Mas MatosB mostra saber da poda ao separar os “weblogs jornalísticos” dos outros. Até porque só poderão obter o putativo abrigo legal para o exercício de noticiar e informar os indivíduos que queiram ter uma carteira profissional, sejam bloggers ou não. Da mesma forma que nem todos os trabalhadores de um jornal são jornalistas, nem todos os bloggers poderão ser tomados como tal.

Anyway, MatosB apresenta razões para existir de facto uma equiparação de estatutos entre o jornalista e o blogger que a deseje (ao contrário do que indicia a leitura dos… jornais, como o DN de ontem, nem todos os bloggers querem fazer jornalismo). Para o proteger? Também, mas sobretudo para o responsabilizar. Para proteger os noticiados? Sim – é um direito que importa garantir. Mas acima de tudo para proteger o público dos excessos.

Um dos excessos ressalta uma vez mais de McLuhan. Sendo o meio a mensagem, então os escribas do meio julgam-se a si próprios a mensagem… Isto é: o poder do exercício do olhar, na palavra como na imagem, sobe facilmente à cabeça dos bloggers e neste espaço ainda sem balizas tendemos a olhar todos por igual, como se todos quisessem praticar a arte de separar o útil do acessório e todos fossem igualmente bons a fazê-lo. Os poderes cometem o mesmo erro e tratam a “blogosfera” como um todo – o que dará absoluta e rigorosa merda dentro em pouco tempo.

Já assistimos a isto. Video kill the radio star, enésima versão. O livro anda por cá há setecentos anos. A imprensa publica-se há 200 anos. A rádio por cá anda há 120 anos. A televisão será em breve centenária. Os blogues ainda nem definiram o seu sexo e já são estrelas. Todos os meios foram a mensagem, todos os meios são a mensagem.

De veículo primordial de cultura e informação, o livro sofreu várias transformações e hoje é pau para toda a obra, de vender autores a vender férias partilhadas a vender receitas exóticas a vender bem estar.

De guardiã da Verdade (e, por consanguinidade, da Democracia…), a Imprensa foi sofrendo várias transformaçães e hoje vende presidentes, preservativos, interesses e influências.

De nova esperança da Verdade, a Verdadeira e Suprema, a Rádio tornou-se com o tempo numa vendilhã de sabonetes, produtos financeiros, riso de opereta, e conforto espiritual para trabalhadores solitários e nocturnos.

De Esta-Sim-Mostrará-A-Verdade-Tal-Qual-Ela-É, a Televisão sofreu a erosão dos tempos e hoje vende, a custo, automóveis, guerras e distracção para PMI (Pequenos e Médios Intelectos).

Os blogues tornar-se-ão, com a passagem do tempo, numa coisa qualquer que por agora é desprezível antecipar (quer dizer: estou mais interessado em participar que em analizar).

Mas enquanto o temopo não passa, gozam merecidamente o seu instante de mensagem: como já o foram os livros, os jornais, a rádio e a televisão antes deles, são um perigo público para os poderes instituídos.

É bom que haja “perigos” destes para os poderes. É saudável para os regimes progressistas. Mantém os poderes sob um (pequeno, mas fundamental) controlo por parte dos apoderados.

Mas – por favor! – não me venham com tretas de “jornalismo”. O jornalismo faz-se independentemente do meio. Faz-se no papel, no éter, na pantalha ou no monitor. Faz-se independentemente, ponto. O jornalismo faz-se com jornalistas. Sem jornalistas, nenhum meio é jornalístico: na melhor das hipóteses, entretém e distrai, talvez até cultive, helàs; na pior, compele, obriga, equivoca, esconde.

Não filtrada por técnicos, a opinião acaba por se tornar mero ruído.

Um dos problemas das democracias é, hoje, a notória escassez de jornalistas, intermediários do importante, separadores do acessório. Sem eles, o ruído sobrepõem-se à mensagem.

Acredito que com tanto barulho, os blogues acabarão por se finar muito depressa, mais depressa ainda do que a televisão – hoje mais um meio de influenciar decisões e subordinar escolhas do que o instrumento informativo ao serviço das populações, como era visto no seu tempo. E para azar do sistema democrático – mas isso são contas de outro rosário.