Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

2 de agosto de 2005

O "país"

A maioria das respostas de leitores ao Entreguem as chaves em Bruxelas, um texto onde iniciei uma reflexão pessoal sobre a utilidade da ferramenta histórica chamada “país”, foi de acinte. Os respondentes preferem acicatar espíritos em torno dos (seus) preconceitos — que julgam transversais, de que o conceito de “patriotismo” é o mais avultado — do que debater a minha reflexão: terá (ou não) chegado a hora de admitir a nova realidade da história do homem e, pragmaticamente ou nem por isso, deixar para trás o “país”, essa entidade abstracta, de espírito, quantas vezes queimando as fronteiras físicas das nações naturais, que já deixou de ser necessária?

“O erro histórico de Portugal foi 1640″, escrevi eu, e o anónimo leitor António (Antónios, como anónimos, há muitos) respondeu, se é que isto é resposta: «É fácil dar uma resposta sem conteúdo, mas com justiça, a essa afirmação, dizendo “ó caro amigo, tenha a primeira atitude patriótica da vida e emigre para Madrid”.»

A invocação da pátria enquanto sustentáculo da razão é auto-demonstrativa, pelo que não gastarei bytes a urrar contra ela. Eu falei de países, não de pátrias. Lisboa é uma belíssima cidade, melhor de viver que Madrid, embora pior de trabalhar, mas disso a culpa não é da cidade nem dos seus habitantes: é na maior medida de quem desgovernou Portugal na última janela de oportunidade, estas três décadas que, perante os actuais candidatos à presidência, ameaçam perpetuar-se (poderes perpétuos, eis algo muito português…)

Posso defender (defendo!) línguas mas não (mais) esgrimirei teclados por uns riscos no mapa que já nada dividem pois nada há para dividir, à luz do que sabemos hoje. Se o “país” é uma questão burocrática, temos amanuenses q.b. em Bruxelas, por um lado, e por outro os amanuenses de cá, empertigados, são uns autênticos inúteis, como se comprova diariamente em qualquer ramo da actividade em que era legítimo esperar deles uma atitude.

Não quero destruir o “país” pela simples razão de que não vejo país algum, aqui (é, aliás, uma das razões para achar que está na hora de enfrentar o novo ciclo histórico em que a geografia deixou de ser um item). O que vejo quando olho para isso a que se chamava “país” é um organismo algo complexo, moribundo, num movimento incessante que visa exclusivamente evitar a sua própria auto-destruição.

Os anti-castelhanos que me desculpem, mas não encontro razões para outra coisa que não um iberismo assumido num contexto europeu, isto se preciso definir (e os ventos do Futuro dizem-me que preciso, ou ninguém me verá) onde estou eu na economia global.

Somos livres de viver o processo histórico para trás ou para a frente, num ou noutro sentido ou num terceiro. Cada um escolha o seu. Eu defino por onde quero ir, não sou homem de aceitar “ordens”.