Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

4 de abril de 2005

O Papa insano

OK: corro o risco de ser mal interpretado. (Já a excomunhão não me assusta.) Mas terei de dizer uma coisinhas contra a corrente a propósito de Karol Wojtila, sagrado Papa da Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR) sob o nick de João Paulo II, cuja morte foi anunciada por estes dias.

Só recorrendo ao desejo de alienação das massas (eu, que não acredito no Espírito Santo) se pode explicar a febre que se apoderou das televisões, e das massas em transe, nestes últimos dias do espectáculo de beneficência em prol da minoria que domina a ICAR a partir da Santa Sé e no qual o polaco Wojtila se imolou, num derradeiro gesto de quem passou a vida a obcecadamente, quase diabolicamente, diria, a lutar para estancar o natural downsizing a que a ICAR (e as religiões em geral, dos panfletários de vão de escada às seitas de antigo cinema, das vetustas organizações seculares às “novidades” recicladas para encher os imensos tempos livres de futebolistas e estrelas de cinema, mas exceptuando o islamismo) vinha sendo submetida por uma sociedade capaz de gerar maior riqueza.

Que outra explicação, além do desejo de largar a realidade e comungar da alucinação colectiva, poderemos encontrar para ver católicos e não-católicos de todo o mundo a chorar um homem que não conheciam e um Papa que deixa a humanidade em pior estado do que poderia estar se o declínio natural, e desejável, da ICAR seguisse o seu devir? Como explicar, sem ser pelo absoluto derrotismo da vontade própria, que se lamente nestes termos o desaparecimento do responsável pelo ressurgimento, em médio esplendor embora, do feudalismo espiritual praticado pela clique que governa a ICAR e à qual os governados (e não governados, até o Dalai Lama!) prestavam cega vassalagem?

Karol Wojtila foi um homem bem sucedido, subindo a pulso a escada da vida até um patamar de grande poder — da mesma forma que Salazar, por exemplo (e no entanto hoje este ícone de poder é marginalizado e calados, ou quase, os poucos que se atrevem a lembrar-lhe a memória).

Na perspectiva de alguém não impressionável pelo barulho das douradas luzes ritualistas do altar do Vaticano e pela tremenda riqueza do vestuário dos representantes desse Estado, e ainda menos sensível à propaganda dita “ecuménica” veiculada pelo vértice da pirâmide feudal, João Paulo II prestou um mau contributo à Humanidade no seu todo, católicos incluídos.

João Paulo II passou a vida a lutar, insanamente, pela sobrevivência do regime em vigor na ICAR, de onde o feudalismo, qual peste bubónica, nunca foi erradicado. João Paulo II não beneficiou trabalhadores (hoje mais explorados, ainda, do que há 25 anos); as mulheres (hoje com os mesmos direitos na Igreja que há 25 anos, isto é, nenhuns — a menos que queiram considerar como um “direito” a eventualidade de cantarem hossanas); os padres católicos (aflitos para manterem o rebanho, divididos entre as necessidades “espirituais” de uma sociedade a 300 à hora e valores que mudam com a licença do passar de um milénio, e empurrados para pecados ignomiosos pela doentia regra do celibato); os católicos em geral (a doutrina retrógrada da ICAR não acompanhou os tempos, não quis acompanhar os tempos, quis permanecer fechada ao mundo e à modernidade).

Em suma: nenhuma classe ou grupo social saiu beneficiado do seu pontificado.

Olhe para onde olhar, entre os pequenos, médios ou grandes dilemas da Humanidade que recorrentemente filósofos e teólogos, xamanes e escumalha espiritual avulsa tentam, benemeritamente, aliviar, não vejo um único tema onde o Papa João Paulo II tenha ajudado as mentes duvidosas — esse gigantesco rebanho mundial que recorre epidemicamente aos Cuidados Intensivos do espiritual.

Olhe para onde olhar olhar, só vejo um Papa da comunicação que reforçou com mestria divina o marketing da Santa Sé — essa minoria de “reis” sem reino, cujas finanças só um cego e alienado pode aceitar como sérias, e que exerce com mão férrea o poder acumulado noutras eras, quando jogavam na premiere league da condução das almas, para perpetuar uma existência sem outro propósito visível.

Nem com lupa consigo ver a excelência da intervenção do Sumo Pontífice na política internacional. Bramiu contra a intervenção no Iraque mesmo quando os GIs já marchavam para Bagdade? Sim — também uma centena de bloggers e ONGs bramiram, e até com a amplificação dos megafones mediáticos, e não as vejo incensadas no altar do prime time… Ajudou a derrubar o comunismo? Só se foi incógnito, de martelo pneumático, atirar o Muro de Berlim abaixo: o comunismo caiu por implosão, um, e num momento particularmente mau da economia mundial, dois.

Andarilho incansável e diplomata de pulso? Sim. E…?

Um dos melhores Relações Públicas (R.P.) que a Santa Sé teve desde os (maus) tempos da Inquisição, sem dúvida por epifania especial do Espírito Santo, foi tão bom tão bom no desempenho da sua profissão que hoje o mundo aceita nas calmas que ele terá sido o Melhor Marcador ajudando a sua equipa a voltar ao topo da Liga das Almas (mentira: o MVP do século XX dá pelo nome de Usama e o islamismo lidera isolado) e engole — a seco — a pílula do seu activismo social (na realidade uma série de trapaças em torno da pecaminosa contracepção, da herética união entre cidadãos com orientações sexuais diferentes do grosso do rebanho, e acima de tudo o seu preciosíssimo contributo para a degradação da saúde pública em pelo menos um continente, o africano).

Eu perceberia (e até aceitava) títulos parecidos com:

João Paulo II: uma vida dedicada a preservar a espécie ameaçada dos senhores feudais da Santa Sé, com piscares de olhos (naturalmente agradecidos) às demais espécies em risco em busca de trade-offs benéficos para ambas as partes.

João Paulo II: a luta insana pelo poder da Santa Sé, mais Paulo que João, adiando para as calendas do século XXI os problemas do mundo católico.

Segredos de João Paulo II: como governar um reino abandonando os súbditos mas reforçando os privilégios da casta e mantendo as aparências (e o poder sobre os súbditos e sobre as nações fronteiriças).

Títulos que nenhum OCS no seu perfeito juízo de mercado fez ou fará.

Até entre os melhores prestadores de serviços à Santa Sé João Paulo II não bateu o recordista do século passado: João XXIII, além de bom R.P. da ICAR, deixou um legado de mudanças ao nível teórico-programático que ajudaram a ICAR a manter dentro das fileiras duas gerações de ovelhas tresmalhadas pela perigosa influência da ala esquerda socialista).

Exposto isto, não acho explicável este ajoelhar colectivo perante um Papa cujo pontificado foi bastante fraco, para sermos caridosos, seja analisado por um católico não-comissionista da Santa Sé, seja esmiuçado por um agnóstico. A não ser, bem entendido, pela graça do Divino Espírito Santo, mas se bem assimilei a teoria (enfim: eu era puto quando frequentei a catequese) essas medalhas e mordomias dão-se lá no Céu e, meus queridos amigos leitores, onde o Papa exerceu e se finou foi aqui na Terra.