Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

17 de novembro de 2006

O Pasquim

O josé da GLQL relembra o Pasquim — semanário dos anos 80 ao qual estive ligado (link). Gostei de ver o cabeçalho do nosso número 4, que abaixo reproduzo.

capa do semanario Pasquim

Eu era um jovem pronto para devorar o mundo e o Pasquim (que, ao contrário do que diz josé, não secundava o Tal & Qual — era pior que isso) não só constituiu uma escola de competências várias, felizmente muito fugaz, como rendeu uns trocos importantes em tempos de vacas muito magras. Nesse longínquo ano de 1985 (vinte e um anos passaram) um jornalista precisava de dois empregos para levar um salário para casa — e alguns com famílias grandes, como o Neves de Sousa, precisavam de um terceiro, um gancho que fosse. Da Gazeta dos Desportos, na Poço dos Negros, ao Pasquim ali à Sé era sempre no 28, de maneiras que assim me estreei também no duplo emprego, uma alegria, dormia-se era pouco.

Foram tempos engraçados. Sim, josé recordou bem, o meu primo João andou lá, era sub-director (ou adjunto; detalhes, alguns não colam) do Luciano Rocha, tinham andado os dois na ANOP. O Luciano passava o tempo a suspirar pela Mariana (filha “do Portela” e que não continuou nos jornais) e era eu quem muitas vezes o ia buscar a sítios que prefiro não descrever. Além do Cerejo, que eu já conhecia do Diário de Lisboa, e ali fazia — como é seu hábito — manchetes atrás de manchetes, também lá estava o Mário Lindolfo, penso que o Daniel Reis (tenho de lhe perguntar lá no Expresso) e mais alguns craques (a ver se saco a ficha técnica por aí, é um regalo, caro josé, não me pode digitalizar isso?). A Felícia Cabrita debutou naquelas páginas. Recordarei sempre que fazíamos crítica de filmes pornográficos, a mim tocou-me uma vez ir ao Olympia – nem a meio do filme cheguei, com a barrigada de riso, mas corajosamente escrevi dois linguados (gíria para laudas, cada lauda com 23 ou 25 linhas de 60 a 80 batidas, para despachar os cálculos da paginação, quais computadores, o off-set ainda cheirava a novo e redacção com fax era redacção info-rica). Era um gozo supremo, mimar os críticos “sérios” como o Augusto M. Seabra, que então pontificava (calculem) na saudosa Revista do Expresso.

Dizia-se que era o jornal das FP-25. Dizia-se que o investimento tinha vindo do produto do maior assalto a bancos até então (e ainda hoje?) feito em Portugal, os 104 (106? 108?) mil contos de uma agência ali à Duque de Loulé. Não sei, nunca soube. O Luciano ria-se com um ar suspeito mas penso que fazia de propósito, era charme. O João não acreditava, era boato. Sei que ao lado havia um restaurante chinês (a rua desemboca no Largo do Caldas, que boa vizinhança) que tinha um porco agri-doce muito bom.

O Pasquim tinha um logotipo espectacular à época (apreciem na reprodução). Melhor que o do Tal & Qual. O Guilherme da Silva Pereira, aqui há anos andou nas bocas do mundo por causa dos direitos dos prisioneiros, escrevia para o Tal & Qual e passou a escrever para nós (julgo que por 25 contos) e foi uma escandaleira, o Rocha Vieira, à altura director do T&Q, foi lá a casa (o Guilherme vivia em Faro, mas eu nunca o tinha conhecido até aí) para o convencer a voltar, lembro-me bem porque estava também o Luciano que tinha ido com o Francisco Rosa (assinava Francisco Ceras no Pasquim) lá abaixo na Diane do Francisco, aprendi o que era um gagarine nessa altura, perguntem-me um dia destes por eles, e foi também nesse dia que conheci José Afonso, que era visita de casa do Guilherme, julgo que pela parte dos respectivos casamentos. Não havia cadeiras, eu e o Rocha Vieira sentámo-nos no chão para ar lugar à Zélia e ao Zeca, já bastante entrado na doença, segurávamo-lo pelas axilas e ele muito digno, o que eu, 25 tenros anos, percebi do mundo e dos homens com aquela dignidade.

Depois de escrever algumas capas, o Guilherme acabou sendo ele próprio capa do T&Q pelas piores razões. O Pasquim não chegou a durar o suficiente para marcar a cena, mas o Tal & Qual — é justo que se recorde — não era só alimentado a róbis e brancas, também fez anos a fio, esses anos, algum do pouco jornalismo de investigação e de coragem que já rareava na Imprensa portuguesa.

O meu primo saiu a mal e outros também. Eu não. Aprendi e diverti-me e vice-versa. Era a minha obrigação, apreender, aprender, beber.

Aproveito e relembro josé (em nota sobre o ecletismo) de que existia nessa altura outro semanário deveras interessante, sob o mesmo ponto de vista, e para o qual também escrevi, ainda que sob pseudónimo (como, descobri quando fui buscar o cheque ao fundo da Alexandre Herculano, faziam gradas figuras do jornalismo da época), chamado O Crime. Fiz para o Crime as primeiras reportagens sobre a fuga de Pinheiro da Cruz, fui o primeiro jornalista a ver, no tribunal de Loulé onde ele tinha sido julgado, o processo de Faustino Cavaco, o homem que assaltava bancos em motorizadas roubadas em Albufeira que abandonava em Loulé ou Quarteira antes de ir dormir a casa. Ainda na última efeméride do caso vi, sem emoção e quase com espanto, que grande parte do que hoje se escreve assenta nessas duas duplas páginas minhas para O Crime, então dirigido pelo grande José Manuel Teixeira — uma força da natureza como conheci raras nos jornais, que esteve ligado ao nascimento do Expresso e de quantos outros jornais.