Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

29 de setembro de 2005

O Poder (local) saiu à rua na Web

Os números são encorajadores: 77 municípios já aderiram à Sociedade da Informação. O pior é que muitos deles se ficam na Web por um postal ilustrado.

De Abrantes a Vouzela, são 77 as câmaras municipais portuguesas com presença assinalada na Internet. Dos 305 municípios do território, que neste domingo vão a eleições, 25 por cento detêm um endereço na World Wide Web. Isto segundo a lista fornecida pela Associação Nacional de Municípios Portugueses, que também não deixou de aderir à Sociedade da Informação. Nas páginas do «site» da ANMP podemos consultar informação sobre todas as câmaras e juntas de freguesias – sendo a base de dados ordenada por distritos e possuindo a informação essencial sobre cada um. Mas outras associações de autarquias também constam na Web, além de várias páginas não oficiais mantidas por entusiastas.

Os números não serão famosos se comparados com os registados em países com maior taxa de conexão, mas não deixam de surpreender pela positiva. Quando um quarto das câmaras decidiu incluir os cibernautas na sua lista de prioridades, elaborando páginas de consulta com «guichets» virtuais para contactos personalizados, já se pode dizer que o poder está mais perto da rua, do cidadão.

Curiosamente, ou talvez não, a distribuição geográfica destes «sites» não tem correspondência com a regra número um do desenvolvimento económico português — que concentra a riqueza nas faixas litorais e deixa o interior e as ilhas longínquas e dependentes. Se é verdade que Beja, no Alentejo, não possui nenhuma câmara na Web, também nenhum dos 13 concelhos de Setúbal aderiu ainda. E distritos como Portalegre (quatro câmaras com endereço em 15 no total distrital) batem-se com Lisboa, por exemplo (cinco em 15).

 O mais conectado distrito do país é de longe o Porto. Onze das suas 17 câmaras municipais possuem um endereço. Mas Aveiro, que tem 19 concelhos, só vê seis deles ligados à rede. O Algarve é equilibrado, com sete das 16 câmaras ligadas.

Como facilmente se conclui desta ronda, o mapa da conectividade não se sobrepõe ao da expansão económica. Aprofundando a questão, não é por terem mais riqueza, maior área ou representatividade no conjunto nacional que as autarquias se ligam à Internet. Capitais de distrito como Braga não estão ligadas, enquanto câmaras mais modestas como Santa Cruz da Graciosa (Açores) ostentam, orgulhosas, as páginas sobre a sua região. Aliás, note-se que Braga não é caso único em termos de cidades capitais de distrito: outras seis das dezoito capitais do continente fazem-lhe companhia no vagão das info-excluídas.

A responsabilidade deste estado de coisas estará provavelmente no uso dos fundos da Comunidade Europeia, como o Fundo de Equilíbrio Financeiro. Gondomar forneceu um dos melhores exemplos das várias páginas investigadas pelo EXPRESSO. Além das habituais secções, como «Cultura» ou «Economia», no «site» de Gondomar podemos saber a composição do executivo camarário (um item básico, mas em geral muito esquecido), incluindo a distribuição de pelouros e fotografias (nada exageradas) dos titulares. Ou ler o «Boletim Informativo». Dispõe também de uma secção de «Sugestões», em que «desejamos sugerir» qualquer coisa aos nossos representantes. Mas a interactividade fica-se por aqui. Aliás, em termos de interactividade o poder local mostra-se pouco aberto. Não vimos nenhum fórum em que os munícipes pudessem trocar críticas ou elogios públicos, e, uma boa parte dos «sites», nem a tradicional «caixa de sugestões» exibe. Em rigor, não basta possuir um endereço – e, portanto, estar listado na página dos «Municípios com servidor na Internet» da ANMP – para se poder considerar conectada uma câmara municipal. Nos casos piores, os servidores que o EXPRESSO tentou visitar não deram resposta (como o de Faro) ou responderam com uma página vazia (Seia). Há outras câmaras detêm meros bilhetes postais na Web: uma página de rosto com uma foto aérea, dois ou três ligações a páginas de história e turismo, algumas descrições do património ou das obras – e pouco mais.

( Texto publicado no Expresso, no então suplemento XXI, em 12 de Dezembro de 1997 )