Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

21 de fevereiro de 2005

O problema é outro

As velhas assustadiças que por aí proclamam a perigosidade do crescimento do BE e do não-afundamento do PCP não estão a ver a realidade. As teses do papão comunista, desculpem, mas na actual sociedade portuguesa não colam nem com cuspo nem com supercola 3. É coisa do passado. O problema do futuro Primeiro Ministro é outro.

O cenário saido da eleições de ontem é deveras curioso e suscita-me a maior das atenções. Nunca a esquerda dispôs de um cenário tão favorável à governação. Por um lado, penso que foi isso que os eleitores quiseram. A direita já dispôs de dois bons cenários e não falhou no primeiro (Cavaco fez, embora tivesse margem e dinheiros para fazer bem mais) mas estatelou-se ao comprido no segundo (o coitus interruptus de Barroso). Certo, então agora é a vez da esquerda ter a oportunidade que nunca lhe demos, parece ter pensado o colectivo do povo português.

Sócrates tem uma responsabilidade que Soares ou Guterres não tiveram. Sócrates está obrigado, como nunca, a mostrar serviço, a fazer um governo forte. Sócrates tem um cheque em branco de saldo bem maior do que a direita temia. Sócrates é a última esperança do país. Esse é o problema.

Para grandes males, grandes remédios. Sócrates dispõe também de uma amplitude muito boa para evitar qualquer “ameaça” proveniente da esquerda — e esta, do PCP ao BE, sabe disso e se se esquecer está tramada. Sócrates pode (e deve…) ouvi-la e concertar-se com ela na medida do integrável na função governativa (há boas propostas nos terrenos sociais). E descartá-la violentamente quando não for integrável (caso da orientação económica).

Com a maioria absoluta, convém recordar ao povo para que este não se babe em frente às referidas velhas assustadiças, Sócrates tem o PCP e o BE bem controlados. O problema não virá da esquerda. O problema é outro.

O problema é fazer uma omelete governativa decente com tanto condimentos (o atípico cenário de distribuição de votos) mas poucos ovos. Sócrates pode até ter um plano. Precisa de pessoas que o executem.

Os directos eleitorais das massas aplaudentes são uma seca – mas ontem uma senhora de bandeira em riste no Rato sintetizou TUDO numa frase, algo como isto: «o povo está exausto e pobríssimo». Com os seus ares de “eu é que sei o que é bom para a economia”, a direita desenvolve sempre os seus governos a favor das minorias da parte superior a pirâmide social. Digamos o que se nos aprouver, escolhamos estas ou outras palavras, à medida de cada um, não há forma de escamotear esta factualidade. Resultado invariável dos ciclos de direita: massas e massas de (des)empregados por conta de outrém com bolsas depauperadas e auto-estima mais baixa que barriga de jacaré. Para mim, que estou habituado a ver conjuntos e não sub-conjuntos, é no mínimo curioso que os pensadores da direita não consigam perceber isso.

Foi esse povo exausto e pobríssimo que virou o leme do país “à esquerda”. É para um conjunto que se governa e não para sub-conjuntos. Como Marcelo Rebelo de Sousa tem razão ao dizer que é uma miragem tentar governar para todos, a democracia é feita de ciclos. Isto é tão simples, porque o complicam?