Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

25 de novembro de 2006

O Público de quando?

A primeira página do Público de ontem, sexta, 24, perturbou-me. Recordem-na ou vejam-na aqui. Em dez títulos e chamadas apenas um nos situa claramente num período de tempo que pode ser hoje mas pode ser do último ano. Os outros nove são actuais no sentido da contemporaneidade: digamos que nos situam em qualquer dia das últimas quatro décadas.

A manchete (manchete, enfim): «aeroporto da Ota vai ficar mais caro que o previsto». Podia ter sido escrita em 2002 ou 2003 ou 2004 — e provavelmente assim foi.

«Afinal aprende-se história a ler romances históricos» (lançamento do Mil Folhas). Tudo bem, tendo em conta o que é. Podíamos estar perante uma capa de 1976 (noutro jornal, bem entendido).

«Prepare já a sua reforma» (lançamento da Dia D). Idem aspas.

«Marylin Monroe Rio Sem Regresso» (promoção do DVD). O antetítulo situa-nos no 80º aniversário do nascimento, é um facto, mas quem sabe em que ano nasceu Monroe? Só o facto de ser um DVD nos “fecha” a janela temporal aos últimos dois ou três anos.

«Iraque Atentado mais sangrento da guerra faz 160 mortos» (título secundário). Sim.

«Médica e enfermeiras acusadas de homicídio por negligência» (título secundário). Sim.

«Protesto Sócrates ameaça militares com processos» é o título, secundário, que nos fecha realmente a janela ao período de um ano e pico, desde que José Sócrates é primeiro ministro (e posso estar a ser benevolente, um leitor picuinhas dirá que ele foi ministro na década passada e insistirá na possibilidade de estarmos perante um jornal dessa época).

«007 O nome dele é Craig, Daniel Craig» (destaque para a Y). Um novo Bond é notícia, claro que é, e Craig merece, como antes dele mereceram cinco actores (oficiais) com nomes vulgares e este título aplicava-se (aplicou-se…) a qualquer deles — excepto eventualmente ao primeiro, Sean Connery.

«Orçamento Governo recua na tributação dos estádios de futebol» (título secundário). Outro falhanço temporal. Este título anda na Imprensa portuguesa há pelo menos tanto tempo quanto eu nas Redacções.

«Toxicodependência preço das drogas desce e apreensões aumentam» (título secundário). As apreensões estão sempre a aumentar, hoje ou há três anos ou há cinco. Sendo uma relativa novidade, a descida do preço também não ajuda a situar-nos em Novembro de 2006.

Nem a publicidade de topo ajuda («Venha inaugurar o Natal Sábado 25 de Novembro Praça do Comércio 20h30»). Em que ano estamos?

Não me interpretem mal: esta leitura nada tem de crítica em relação às opções dos responsáveis pela primeira página aludida. O assunto não é o critério. A perturbação veio, isso sim, da nossa própria “actualidade” (aspas, naturalmente) ser um conceito assim tão difuso, indistinto num dado intervalo de décadas, retratado desta maneira num jornal diário, um templo do instantâneo. Olhei aquela primeira página e foi parecido com uma sensação de dejá vu, durante uma fracção de segundo pensei mesmo estar a consultar um arquivo (fui lá parar através de uma busca nos arquivos de 2003 de um blog) mas algo me dizia que não, talvez o grafismo, e fui procurar alívio na data.

Encontrei-a.

Mas não ao alívio.