Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

14 de março de 2006

O que nos vale é que ele é inofensivo

O QUE NOS VALE É QUE ELE É INOFENSIVO. Endividando-se até à raíz do tutano, um grupo industrial anuncia a compra doutro, que considera estratégico tanto para defender o seu presente como para proteger o seu futuro. Um grande grupo financeiro anuncia querer comprar um grupo financeiro concorrente. O mercado de capitais, essa Maravilhosa Ferramenta / Fantástico Contributo Do Capitalismo Para Redistribuir A Riqueza, reage com optimismo moderado às duas OPAs consecutivas. Devido à proximidade temporal, os índices sobem ao seu nível mais alto dos últimos cinco anos. Assarapantada com a avalancha de notícias dignas deste nome de um sector deprimido que não dava uma para a cacha há que tempos, a Imprensa abre-lhe o prime-time.

Chamado à nobilíssima actividade de comentar a realidade, Pedro Ferraz da Costa acha que são sinais de recuperação da economia e di-lo publicamente. Defende-o. De caminho esta extraordinária cabeça aproveita par aplaudir os media por «finalmente» relevarem a importância de manter os centros de decisão no país.

Manifesta-se feliz pelo “aumento do investimento” no sector financeiro (porque dá mais lucro, explica). Não acha excessivos os respectivos lucros. Mais: chama a isso «progresso». Portanto, no olhar liberalzinho de P.F. da C. sobre o mundo, progresso é a acumulação de dinheiro (finanças) e façam o favor de não confundir com criação de riqueza (economia), esse detalhe desprezível para qualquer individualista dos fáceis, dos bem nascidos.

Aquela dos centros de decisão conquistou-me: P.F. da C. julga-se realmente importante, o que lhe dá o toque de lunático; felizmente, é inofensivo e, para nosso descanso, não é contagioso.