Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

25 de setembro de 2006

O semanário Sol ao segundo número

Já agora: tal como tinha avisado antes, relativizando o fraco primeiro número do Sol, a leitura do segundo número é que conta. Nesta edição e nas próximas poderemos, finalmente, avaliar o potencial do jornal. O segundo número está francamente melhor: mais bem arrumado e mais claro, textos menos ansiosos — o problema do nervosismo da estreia desapareceu — já se antevê a “alma” do Sol. O reality-check terá evidentemente repercussão nas vendas. Um número um toda a gente quer comprar, por todos os motivos. Vamos lá ver se este número dois também esgota nos quiosques.

Desejando-lhe longa vida e muito sucesso, repito o que escrevi antes: não vejo que seja a concorrência ao Expresso. São jornais com objectivos muito diferentes e públicos também distintos, na sua grande maioria. Além da franja que comprará ambos por dever profissional, pouca gente trocará um pelo outro.

JAS pode, finalmente, testar o que pensa que é um semanário. No Expresso era o director de uma máquina profissional e muito oleada, que quase funciona sozinha, uma espécie de FC Porto da Imprensa onde o treinador, por muito bom que seja, não passa um elo que se encaixa (ou não). Deixou a sua marca, o seu cunho — mas francamente basta andar pela Redacção do Expresso uma manhã para perceber que o cunho de JAS era efectivamente menos marcante do que ele julgará com a megalomania que o caracteriza.

No Sol JAS terá de pensar o jornal, não dispondo dos vastos recursos e, mais importante, do extraordinário capital humano que fez o Expresso com ele, fez o Expresso antes dele, e continuará a fazer o Expresso depois dele.

O projecto do Expresso passa por ser o melhor e mais prestigiado semanário, tendo no seu ADN a democracia como uma finalidade e a política como uma “arte”.

O projecto do Sol nada tem a ver com prestígio e excelência, passa por querer ser o semanário mais vendido, tendo a democracia como um bem adquirido e a política como uma luta de galos.

Este é o ADN, a base de partida dos dois. O ADN do Expresso estava ajustado à época do seu nascimento. O ADN do Sol é anacrónico. Entalada por todos os lados, com leitores e anunciantes em fuga (e desorientação), a Imprensa de média qualidade jornalística tem duas hipóteses: ou investe para ascender na escala até ao patamar da tranquilidade, ou desce a escala e vai misturar-se, abandonada nos bancos do metropolitano, com os suportes de anúncios que passam por “jornais gratuitos”. Com um jornalismo indistinto e assombrado pelo “jornalismo do cidadão” que pulula na cada vez mais popular Internet.

Vamos ver para onde vai o Sol. Dêem-lhe um ano.