Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

5 de maio de 2006

O Sol

Quando Marcelo Rebelo de Sousa saiu, o Expresso ficava orfão de um Grande Líder que tinha praticamente feito o jornal e temeu-se a sua queda. A expectativa do Semanário (feito “contra” o Expresso) durou algum tempo na Imprensa, e quase outro tanto duraria esse título. O Expresso aumentou as vendas e reforçou a sua posição.

Quando Vicente Jorge Silva saiu, o Expresso ficava orfão do seu Grande Inspirador e mentor da Revista que era o grande baluarte do jornal e temeu-se a sua queda. A expectativa do Público (para onde VJS levou uma vintena de jornalistas do Expresso) durou bastante tempo na Imprensa e o título — um jornal diário que não foi feito “contra” o Expresso, embora por questões de “marketing” a frase tivesse aparecido repetidamente na Imprensa da época — subsiste, tendo sobrevivido… à saída de VJS e quase toda a equipa ex-expressista. O Expresso aumentou as suas vendas e reforçou a sua posição no mercado.

Mesmo figuras de segunda (em termos do jornal), como Miguel Esteves Cardoso, sairam deixando o Expresso órfão da sua Indispensável Genialidade, e temeu-se a sua queda. A expectativa do Independente durou mais tempo, alimentada pelos caseiros génios do bluff e por uma Imprensa de direita cada vez mais anti-Expresso (um jornal irritante porque nascido e feito teimosa e impertubavelmente ao centro) e ainda por consecutivas injecções de capitais, por razões até hoje obscuras. O Expresso aumentou as suas vendas e reforçou a sua posição de mercado.

Esta é a tradição histórica que José António Saraiva enfrenta. A apresentação pública do seu Sol é uma remake deste argumento, uma remake não particularmente diferente das anteriores, até ver. O marketing, em que JAS é bom, foi modernizado para corresponder aos tempos modernos.

Não vejo no projecto a centelha de novidade capaz de guiar o Sol não apenas num meio difícil porque povoado por títulos fortes, mas também contra a dupla crise que afecta os jornais: a crise da publicidade, que lhes asfixia as receitas, e a crise de ambiente, com a migração dos leitores do papel para a rede.

Mas a equipa de JAS tem direito a crédito por mais algum tempo: afinal, esta é a época da expectativa. E sem sonho não há mudança. Em lado nenhum.