Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

17 de maio de 2006

O tuga da bola

O tuga da bola é um especimen curioso. Define-se por ter uma paixão por um clube qualquer, geralmente com a força suficiente para o cegar de forma incontrolada, totalitária, absolutista e irreversível, tornando-o incapaz, sequer, de apreciar o desempenho dos artistas do seu próprio clube; “eles” (um conceito que engloba do presidente ao roupeiro) estão acima de tudo e as respectivas capacidades de (fazerem) jogar bem ou mal são totalmente irrelevantes para o tuga da bola.

Não tenhamos ilusões, para o tuga da bola até vencer ou perder é matéria secundária: acima de tudo, mesmo de tudo, está Defender a Honra do seu Clube e Gentes (do presidente ao roupeiro, respectivas ascendências e descendências, e mais as suas opiniões sobre o que quer que seja, pois toda a gente sabe que se Pinto da Costa quisesse era Presidente da Europa!) dos mais diversos ataques, sendo inimigos principais os jornais e a televisão e os relatores da rádio (incluindo o senhor Fernando Correia, que lá por ser bem educado não tem nada que escapar, isto ou há democracia ou comem todos), mas também os adeptos dos outros clubes, os não-adeptos e ultimamente também a CMVM, as Finanças, os tribunais (atão aquilo faz-se ao senhor major?!?) e o governo.

O tuga da bola passa o ano a vegetar e a emborcar mines frente à Sporttv enquanto vocifera contra os #$%$$&%#$& do treinador e do guarda-redes: por um mistério só comparável ao da Fé, os avançados são perdoados mesmo quando falham clamorosamente, bastando um simples oooohhhhhh de desapontamento. Breve: quando a bola é reposta em jogo depois de devolvida da bancada lateral, onde foi parar apesar de a baliza ser em frente e estar escancarada, já o tuga da bola repôs o crédito ilimitado de que goza o Seu Ídolo e Futuro Jogador Melhor Vendido De Sempre.

Por definição, o tuga da bola não aprecia o futebol. Não quer apreciar; isso é coisa para intelectuais como o senhor engenheiro Pinto Vargas (sic), que tocava piano e até é do Puerto, carago. Ou aquele que é realizador e a mulher era da Bola, os dois doentes do Glorioso, Viva O Glorioso!

O tuga da bola não sabe nada de nada sobre a dinâmica de grupo, e é incapaz de dizer (partindo do princípio, inseguro, de que a viu) se a beleza de uma jogada se deveu à inspiração do Quaresma ou ao trabalho de meses nos treinos para rotinar os cinco ou seis movimentos colaterais aparentemente desligados mas imprescindíveis para a produzir.

Como os peixes, o tuga da bola por definição não tem memória: excepto os nomes de Eusébio e Figo, que lhe estão implantados geneticamente, só é capaz de recordar o autor do golo da semana passada, esse grande herói que não pode falhar a selecção e o Mourinho já falou dele ao russo.

O tuga da bola exulta com a proximidade de uma prova como o Mundial. É a altura em que brilha em todo o seu esplendor de anémona, em que se ergue do sofá e gesticula, seja numa roda de amigos, seja numa roda de blogs, e entre espasmos pede a cabeça do $%$%&$%&% do seleccionador, que não convocou “os melhores”. Como se o tuga da bola, esse repolho desprovido de olhos (para já não falar do cérebro), soubesse sequer soletrar e-q-u-i-p-a.

Os tugas da bola dividem-se em tribos consoante a sua definição de “os melhores”. Mas actualmente (como sempre acontece no mês anterior ao evento) todas as tribos convergem num ódio único: o treinador campeão mundial e vice-campeão europeu Luis Filipe Scolari.

O tuga da bola já se muniu das almofadas contra a derrota: se perdermos, a culpa é do Scolari (com o Quaresma ganhavamos DE CERTEZA, com ou sem Scolari). Como se fosse uma grandiosa descoberta. Não é. Desde que o futebol se modernizou (ou até desde antes), o treinador é inevitavelmente escolhido para o altar dos sacrificios aos deuses irados. O tuga da bola nem é capaz de descortinar as habilidades e julgar as mestrias (para não falar dos condicionantes) do seleccionador, nem lhe falem em interessar-se por tais assuntos esotéricos. Nada o importa, nad o toca: o brasuca não vale um chavo porque colocou Vitor Baía no lugar dele, mandou passear um tal de Pinto da Costa e manteve a posição certa quanto a Quaresma, o habilidoso-mór do reino que tem falhado sistematicamente as oportunidades de se tornar num jogador a sério mas que o tuga da bola Idolatra Acima De Todos os Outros Deuses Do Esférico.

O tuga da bola é um atavismo, um troglodita que sai da caverna empunhando um varapau convencido de que é capaz de escolher melhor, individualmente ou em tribo, do que o treinador campeão mundial em exercício.

Infelizmente, o tuga da bola é a espécie dominante entre os apreciadores de futebol: intoxica o espaço público com as suas arruaças, é um atentado ecológico.

Felizmente, durante os 90 minutos de cada jogo, seja apaixonante ou apenas morno, não temos de aturar o tuga da bola. A magia do futebol tem destas coisas.