Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

10 de dezembro de 2005

O vencido

O VENCIDO. O debate desta noite na TVI entre Francisco Louçã e Cavaco Silva teve claros vencedor e vencido. Importante para Louçã marcar os pontos que marcou. A candidatura do BE é a mais clara nos objectivos e para já é a mais eficaz. Neste debate fez o que lhe competia e fê-lo com brilho: entalar Cavaco, fazê-lo tropeçar, enganar-se, dar o flanco. Qualquer coisa. Foi delirante, ver Cavaco estatelar-se um par de vezes nos seus próprios domínios graças à verve de Louçã.

Papel patético cumprem agora os apoiantes de Cavaco, amortecedores da queda. Tudo o que se lhes vê fazer e dizer, nos comentários pré e pós debate, é minimizar o impacto do vazio de uma candidatura sem sentido algum que se pressente, adivinha ou, nos melhores momentos para a esquerda, como proporcionou esta noite Louçã, se torna gritantemente evidente.

Hoje não percebo porque corre Cavaco. É evidente e salta à vista em cada debate, entrevista, acção de campanha, que não gosta de falar com pessoas. Em política tem as vistas curtas sobre o seu próprio umbigo, não se lhe conseguindo arrancar uma ideia ou pensamento que não assente em cima do vector da sua governação anterior. Tudo o que o candidato da direita tem para apresentar como credenciais para a presidência é ter um dia sido primeiro ministro (segundo ele e a minoria que o rodeia, um bom primeiro ministro). Não tem mais nada, não mostrou mais nada, não quis meter mais nada em cima da mesa. Triste show, o de um jogador de poker sem ases nem capacidade de bluff.

É uma incógnita para o eleitorado o que faz correr Cavaco. Porque quer ele ser presidente? Porque quer “mandar” em Portugal outra vez? Ele diz que não e na realidade ninguém acredita que o quisesse. Porque sente um desígnio pessoal? Sim, filhos, eu também sinto. Porque o partido lho pediu? Não, claro. Porque as pessoas lhe pediram? Não, garante o próprio. Porque se acha competente? E…? Porque tem uma visão de futuro para a pátria? Era bom que a revelasse, então. Porque “acredita nos jovens”? Sim, todos nós “acreditamos” nos “jovens”.

Não consigo perceber. Mas consigo perceber isto: Cavaco tem muito a perder, tendo partido com um capital tremendo para estas eleições. Faz um percurso descendente de tal forma acentuado que os seus seguidores rezam para que o dia da cabina de voto chegue depressa e os alivie do pesadelo da curva para baixo. Se a campanha demorasse mais um bocado, a curva não pararia de se acentuar. O que me deixa a pensar no que poderá este país esperar dele, caso venha mesmo a ser eleito.

Sim — porque depois do debate desta noite, com um vencido tão evidente quanto surpreendente, vendo a abordagem cautelosa dos principais guerreiros cavaquistas, fica bem claro que a vitória está longe de garantida. Quem pensou que eram favas contadas deve a esta hora estar a engolir em seco. E por toda a direita tira-se o pó às máquinas de calcular votos e, devagarinho para não dar nas vistas, começam-se a contar os trocos às sondagens.