Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

1 de julho de 2006

O Xeque-mate

Descansa, Rui, não vou falar outra vez do Baía. Nem do Serrão. Prefiro mencionar a vitória estratégica de Luís Filipe Scolari que, como um bom jogador de xadrez, começou a intimidar um adversário considerado superior na inteligência logo na disposição das pedras do tabuleiro.

Na abertura Sven-Goran Eriksson desvendou um clássico gâmbito de rei e fez roque o mais rapidamente que pôde, do outro lado Scolari respondeu pelos livros entricheirando as suas peças em frente à baliza mas sem deixar de ameaçar o centro: as duas selecções encaixaram uma na outra nos primeiros dez minutos de jogo permitindo aos analistas inferir, correctamente, que se preparavam os mestres para uma maratona demorada pelo meio jogo, nenhum deles querendo precipitar-se desajeitadamente, todas as peças preparadas para resistir às adversidades do relógio e do tabuleiro de jogo.

Os primeiros 45 minutos foram de total equilíbrio territorial mas a segunda das quatro metades do jogo começou com dificuldades inesperadas para as camisolas brancas: Beckham, a Rainha de Eriksson, abandonou o tabuleiro por lesão e volvidos minutos aconteceu o sacrifício (escusado) do temível Cavalo Rooney. Exultaram os portugueses com a possibilidade do xeque mate e uma fase final rápida contra um adversário com uma figura de desvantagem, mas o estratega sueco tinha as segundas linhas muito bem preparadas: do banco saltou Peter Crouch, uma Torre altíssima capaz de manter em permanente alerta cavalaria e brega nas trincheiras em torno do Rei de Scolari. Conhecido por ser frio e cerebral, afinal Eriksson sabe manter a guarda também em situações de grande apuro emocional. Com o cronómetro contra si, as brancas resistiram heroicamente.

Já perto da hora e meia de jogo o mestre brasileiro teve, também ele, de abandonar a Rainha cansada, mas Figo tem a sua substituição no xadrez de Portugal já preparada com método e zelo. O Cavalo Maniche e os bispos Tiago e Simão fizeram a preceito a ocupação das casas centrais e laterais, abrindo consecutivas linhas defensivas ou de passe para as diagonais. A partida manteve as características de grande batalha até aos últimos lances.

O estudo específico das brancas para o tipo de decisão final por penalties foi derrubado pela mestria fina do Bispo Ricardo, que justamente entrou para a história do torneio, e do Cavalo Ronaldo que, na hora do Xeque-mate, não hesitou e ganhou a partida com um movimento seco e confiante, só acessível aos predestinados.