Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

5 de maio de 2006

O zarolho dos sabonetes

Há lugares que visitamos ao longo da vida. Sem que com eles construamos uma relação com afecto. Apenas passamos por lá. Visitas. Mudamos nós e mudam os lugares ao longo das décadas.

Um dia, sem razão alguma, apenas porque sim, ganhamos por um desses lugares um carinho especial, até com direito a petit nom.

Este lugar tem agora um parque de estacionamento subterrâneo. É por causa desse parque de estacionamento subterrâneo que ganhei um carinho especial pela praça. Sempre que dele saímos, pela escada ou elevador, ainda é dia, ainda não é noite, e a única entrada possível para o Bairro Alto nos meus dias de hoje passa por aquela luz, uma luz que eu nunca vira antes, em quase três décadas a passar pelo zarolho dos sabonetes.

Nos meus 18, o zarolho respondia-me pelo nome de família que usou nos poemas. Rodeava-lhe o pedestal no estribo do 28, carregando um fardo de jornais, e aquele olho olhava-me desconfiado. O nome completo, com o do meio e tudo, apanhou-me no fim dos meus vintes, o ordenado do Popular era depositado no banco da esquina — isto é importante — nas costas do zarolho. Andei sem lhe chamar nomes uns tempos a meio dos meus trintas, de trombudo que eu andava voltei-lhe as costas e ao mundo, palmilhava da Bica pelas ruelas até aos CTT da esquina (a outra) com o Hip, davamos figurados cinco escudos aos pombos, os ratos dos céus, para irem almoçar fora e largarem o mármore ao gajo.

Hoje, o zarolho dos sabonetes faz parte das minhas rotinas com a graça de Deus que é pai (frase tomada de empréstimo para efeitos deste parágrafo) e a alcunha é tudo menos desrespeitosa, alto lá. É, na verdade, a minha maneira rude, íntima, de fazer uma homenagem. Uma homenagem à força da vontade. A força que gostava que o Hip tivesse tido na altura difícil dele acabei tendo eu na minha, sem saber ler nem escrever (já o zarolho e o Hip sabiam). E foi essa força que me devolve o sonho de estar vivo. E foi por esse sonho que entrou aquela luz. Uma luz única, nova, uma luz que estende a passadeira à boa disposição, à partilha de rotinas familiares exclusivas, perfeitas, felizes. Uma luz diferente de todas as luzes. Em vez de estacionar à porta do sítio onde fosse, jornal ou restaurante ou bar, como fiz a vida toda, as vidas todas, no Bairro, hoje fico tranquilo ao deixar o carro à guarda do zarolho dos sabonetes. Obrigado, amor, pela mudança e pela luz e pelo riso e pela rotina.