Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

17 de dezembro de 2004

Olha amor

Roubo uns minutos ao trabalho para te escrever. Gostei do teu sorriso por causa da outra carta pública. Oceanos há muitos, cinco dos grandes, e países perigosos bastante mais. Nada disso interessa. Nem sequer a troça deste meu tom amoroso a descair para o lamecha: quando se sente o que nós sentimos é como o efeito de uma vacina, fica-se imune a certos desdéns.

Gosto de te escrever assim em público no meu blogue. É o meu blogue, é onde registo parte de mim — e sendo tu parte tão importante não podias ficar de fora. Desde que cuidadosas na escrita, as cartas pessoais podem ser lidas por toda a gente, no problemo, e tenho gosto em partilhar o meu estado de alma com os meus leitores. Enfim, com alguns deles — como os familiares (que sabem de nós vindo aqui ler-me e indo ao teu blogue também) e amigos cúmplices. Os outros, pois é passar por cima que têm mais para ler.

É bom descobrir que nos preenchemos mesmo a tantos milhares de quilómetros. Aquece-me ler os teus posts escritos à velocidade da luz num intervalo para o café. Como a distância, o tempo não consegue imiscuir-se entre nós dois. Subvertemos tanta cartilha, enganámos tanta lei da física — e o melhor de tudo é que não fui eu nem tu a fazê-lo: simplesmente aconteceu vindo do fundo de nós, uma entidade inexistente até ao preciso momento em que uma parte indistinta de nós disse pela primeira vez «senta-te ao meu lado, temos muito que conversar». E o universo sumiu logo ali deixando-nos a respirar um ao outro, embora escutando vagamente as conversas alheias. Dois seres que se atraem inexoravelmente desprezando leis e costumes do Homem.

Olha amor, vou preparar o meu jantar — e jantar sozinho com a televisão e recordar o nosso último jantar que foi tão surpreendente. Amanhã é menos um dia sem ti. Um beijo clássico.