Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

13 de janeiro de 2008

Os mais vistos do YouTube: onde é que eu já vi isto?

Afinal, parece que o user-generated content não produz assim tanto “lixo” nem é assim tão virtuoso nos seus, um, objectivos. Se formos ver a lista dos sucessos de 2007 (obrigado, VideoSaver) no vóstubo, a coisa não parece diferente do outro tubo, a televisão.

Uns turistas (safari group, as they call…) andavam a beberricar pelo Kruger National Park adentro e filmaram acidentalmente o sonho de centenas de profissionais do audiovisual. Um grupo de leões apanha um bezerro búfalo e vai placidamente trincar o naco quando um crocodilo que se aproximou à sorrelfa espeta o dente e tenta ficar com o produto do saque leonino. Os leões a muito custo conseguem recuperar o bezerro dos dentes do rastejante, sacam-no da água e começam a pôr a mesa para o lanche. Mas a manada de búfalos tocou a reunir: faz o cerco aos gatarrões e interrompe o piquenique com umas gentis marraditas que levam um par de leões a uma inesperada viagem áerea. Safam o bezerro não sem antes darem uma coça nos leões, obrigados a fugir que nem chacais. Sobretudo aquele “huge bafalô, huuuge bafalô”.

Desculpem. Não passo de um atavismo. Palavras para quê, vejam com os vossos próprios olhos:

(Battle at Kruger, para os leitores de feed ou mail)

O raio do filme é tão perfeito, tão perfeito, tão perfeito, que até tem um sacana de um final feliz: o bezerro safa-se milagrosamente de tanta dentada, puxa e repuxa. É de 2004 e já passou no tubo americano (refiro-me ao velho tubo) e a história contada num artigo da Time — a consagração, portanto. Depois o Jason275 — entretanto uma celebridade mundial e tudo cujo perfil é o 77º da lista dos perfis mais vistos do tubo (refiro-me ao novo tubo) fez o upload para o sítio do costume e pronto, eu fui, à pouco, o 23.048.202º a ver os oito minutos e 23 segundos da “Battle at Kruger”.

São 23 milhões de visualizações. 3 milhões de embezerrantes horas.

Consta que a National Geographic está a fazer um behind-the-scenes. É uma forma muito típica, muito canal cabo, de meter a concha na malga e… why not? É até muito bom. O video não está editado, não têm câmara lenta, múltiplas tomadas de imagem e tudo aquilo com que os profissionais justificam as suas profissões. Justifica-se perfeitamente a edição. É um diamante do conteúdo gerado pelo utilizador, há que o lapidar e só os profissionais o podem fazer (e comercializar o resultado com espera-se que generosa partilha das receitas).

Curiosamente, outro dos videos de maior sucesso no tubo continua a envolver felinos. No caso, um gato que toca piano.

Sim.

Um gato que toca piano.

Ninguém lhe perguntou, mas o “dono” achou-se no dever de nos “contar” que a gata (chamam-lhe “nora”) não foi ensinada. Não. Desde novinha, porém, que se habituou a sentar ao piano e a tocar.

Não estou a delirar, ora dê o leitor corda ao boneco aqui em baixo:

(Nora: Practice Makes Purr-fect, para os leitores de feed ou mail)

“Nora” já tem um CD a vender que nem tremoços. Mais. Há uma indústria a florescer no nicho “música tocada ou inspirada por animais de estimação”. “Nora” “gravou” com uma banda de jazz, está tudo muito correcto, tão correcto que 2 dólares de cada CD vão — dizem os promotores e eu acredito piamente — para a Best Friends Animal Society, pelo que toca a comprar ppl.

Aguardam-se aliás as sequelas & derivados, com a música de animais selvagens em cativeiro, a música “composta” pelas baleias (um revivalismo, note-se, de um filão recorrente do cabo e das madrugadas) e quiçá CDs para plantas ornamentais. Afinal o copycatting é uma marca distintiva da geração C… (outra balela 2.0 para entreter o pagode: na verdade, replicar o sucesso está subjacente à evolução e a economia faz-se em cima da cópia mais que do original).

Eu sorrio. À medida que penetramos pela galeria do século XXI, vai ficando claro que a revolução da Internet é essencialmente uma revolução económica, ainda que os seus primeiros efeitos fossem observados pelo prisma das mudanças sociais e comportamentais.

Do meu ponto de vista, e para simplificar, aumenta a quantidade de pessoas e organizações perenes e ad-hoc a meter as respectivas colheres nas malgas. Acolho isto de bom grado, que fique claro. Ao contrário dos nossos Luís XV de província e da escola Andrew Keen, não me incomoda partilhar o palco (there is no spoon) nem temo o fim da civilização do conhecimento às mãos dos macacos munidos de teclados (e câmaras e microfones).

Como a lista dos mais vistos no novo tubo comprova em todo o seu esplendor, a lógica mediática, que é a lógica do sucesso público, do insólito, do humor, da distracção, está bem e recomenda-se na sua nova versão mais, digamos, abrangente em termos de colheres e malgas. Tirando o dispensável espectáculo proporcionado por um punhado de empresas e indivíduos que se acham no direito divino (ou sucessório) ao lucro da bilheteira e aos holofotes do circo e que se lamuriam publicamente num despudorado exercício de mau gosto, não vem daí mal ao mundo.

A ciência faz-se no laboratório, o ensino na escola, o espectáculo na tenda e a conversa no átrio da igreja. O que mudou, para além da saudada modernização de locais e métodos?

Eu digo-vos: mudou — ou tem vindo a mudar, para sermos mais rigorosos — o acesso. A Internet veio acelerar o ritmo de uma evolução com raízes muito antigas, a evolução da comunicação. A comunicação é a base do saber e do conhecimento. Mais acesso a comunicação (e comunicação mais rápida) pode aumentar o ruído e até mudar a percepção das realidades que compõem o nosso meio envolvente, mas é improvável que diminua o saber.

Quanto ao perigo dos ruídos e sobretudo ao perigo da ilusão através dos jogos (e antes dos jogos atacávamos os programas de televisão), meros sinais dos tempos. Por mim, tanto faz a alienação das massas pelo trabalho escravo ou pelo consumo escravo — são apenas dois modelos, sequenciais, de lhes ficar com o resultado do suor. Estou certo que não faltará imaginação e iniciativa para mais modelos do género.