Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

2 de janeiro de 2008

Os trolls, como torná-los inofensivos (usando o WordPress) e "argumentos" em sua defesa

A possibilidade de comentar um texto, em voga nos sites de jornais e em blogues, dá origem a debates construtivos – mas também gera um subproduto da comunicação online: o trolling.

imagem 3: desenho de um troll

O trolling (consultar ficha preciosa na Wikipedia) consiste essencialmente em provocar as pessoas, começando pelo autor do texto que se comenta. O verbo deriva de uma actividade já de si pouco recomendável praticada na antiga Usenet, que consistia em lançar o isco para debates sem propósito aos novatos que todos os dias surgiam, para depois gozar as previsíveis respostas. Com a evolução — rapidíssima, como tudo na Internet — do termo, hoje designa genericamente as actividades que enfurecem, provocam, denigrem, desviam a atenção, aborrecem.

É uma das mais recentes espécies de parasitismo digital: sem vontade, arte, ou tempo para construir a sua própria publicação, marca ou reputação, o troll procura a glória imediata, não se importando até de pagar a factura do anonimato.

Pode estabelecer-se uma relação entre a visibilidade de um autor e a quantidade de trolls que gravita nas respectivas caixas de comentários. No Expresso online temos um caso de estudo: Miguel Sousa Tavares. É frequente vermos comentários aos seus textos, por vezes às dezenas, sem nenhuma ligação com o assunto em causa, repetindo graças à facilidade do copiar-colar os esfalfadíssimos argumentos do alegado plágio, quando não são as menções estúpidas à sua preferência clubista (os comentários de ódio são uma espécie de trolling).

Fora do Expresso, os blogues Arrastão e Blasfémias estão entre os principais viveiros de trolls. Um excelente exemplo que reforça a tese da relação com o sucesso pode ser lido no texto O prémio devolvo, o guito nem pensar, em que o blogger vencedor do concurso para o Melhor Blog Português se confronta com meia dúzia de trolls que não passam despercebidos entre os comentários a elogiar o sucesso ou a criticar a vitória.

Trolls can infect a small group, but they really shine in big forums, diz Cory Doctorow num texto publicado na Information Week (How To Keep Hostile Jerks From Taking Over Your Online Community).

Alvos muito frequentes dos hostile jerks, Miguel Sousa Tavares, Daniel Oliveira e o colectivo do Blasfémias, com João Miranda em destaque. são também alvo de outra espécie de trolls: as sombras. “Comentaristas” que seguem cada texto sempre atentos aos detalhes, que enfatizam e descontextualizam e distorcem o sentido sem dó nem piedade — não raras vezes inflamando os diálogos nas caixas de comentários ou envenenando o respectivo clima.

Como seria de esperar, há ferramentas para lidar com os trolls.

O Expresso, por exemplo, usa um sistema de pontuação aos comentários que tem vindo a sofisticar-se há mais de uma década em foruns de enorme tiragem como a Slashdot (que, entre outras coisas bem mais interessantes, é um laboratório de trolling). Neste sistema cada comentário pode ser pontuado, há uma média de pontuação por autor e os leitores podem escolher até que ponto querem “descer” no nível das conversa, tal como este é definido em função dessa pontuação.

Menos sofisticado tecnologicamente, mas mais interessante num contexto cibercultural (e eventualmente mais radical enquanto resposta…) é um plugin para o WordPress — um dos sistemas de edição mais usados em todo o mundo, quer em blogues quer também em jornais. O Cave Your Trolls for WordPress (obrigado, Daniel), também usa pontuação — mas atribuída pelo administrador do blogue ou site. Em função dela o sistema só exibe o comentário do troll ao próprio troll e ao administrador. Ou seja, segue a filosofia contrária ao “don’t feed your troll”: alimente-o e mantenha-o contente e convencido, mas assegurando-se que os leitores não têm de passar pela desnecessária experiência de lidar com os seus trolls ;)

É claro que já há reacções aos modernos avanços sobre o trolling. Com o objectivo imediato de publicar os comentários escondidos pelo sistema do Digg, um site extraordinariamente popular de hierarquização de conteúdos pelo utilizador, abriu em finais de Novembro o Don’t Censor Me. Aqui se recuperam pérolas como “no the HARDEST game ever is in my pants…….. lol get it? in my pants? its hard……… take a guess. hint its for the ladies ;) ”.

Ali se define a cartilha dos trolls. Os quatro principais pontos são:

Chamar “fascista censor” aos moderadores é um dos passatempos favoritos dos trolls, que deram novos usos ao termo fascista.

Isto em si já é trolling: estabelece propositadamente a confusão com o direito de resposta consagrado nas leis que regulam a comunicação social.

( Este texto foi publicado primeiro no Expresso online. A reprodução aqui tem dedicatória: aos meus inefáveis “zés”. )