Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

25 de abril de 2007

Os Índios da Meia Praia

Dulce Pontes nunca será Maria João. Tirando isso, estes Os Índios da Meia Praia até que se safaram. Pelo diálogo e pelo Júlio.

“Os Índios da Meia Praia”

Aldeia da Meia Praia

Ali mesmo ao pé de Lagos

Vou fazer-te uma cantiga

Da melhor que sei e faco

De Montegordo vieram

Alguns por seu próprio pé

Um chegou de bicicleta

Outro foi de marcha à ré

Quando os teus olhos tropecam

No voo de uma gaivota

Em vez de peixe ve pecas de oiro

Caindo na lota

Quem aqui vier morar

Nao traga mesa nem cama

Com sete palmos de terra

Se constrói uma cabana

Tu trabalhas todo o ano

Na lota deixam-te nudo

Chupam-te até ao tutano

Levam-te o couro cabeludo

Quem dera que a gente tenha

De Agostinho a valentia

Para alimentar a sanha

De esganar a burguesia

Adeus disse a Montegordo

Nada o prende ao mal passado

Mas nada o prende ao presente

Se só ele é o enganado

Oito mil horas contadas

Laboraram a preceito

Até que veio o primeiro

Documento autenticado

Eram mulheres e criancas

Cada um com o seu tijolo

Isto aqui era uma orquestra

quem diz o contrario é tolo

E se a ma lingua nao cessa

Eu daqui vivo nao saia

Pois nada apaga a nobreza

Dos indios da Meia-Praia

Foi sempre tua figura

Tubarao de mil aparas

Deixas tudo à dependura

Quando na presa reparas

Das eleicões acabadas

Do resultado previsto

Saiu o que tendes visto

Muitas obras embargadas

Mas nao por vontade própria

Porque a luta continua

Pois é dele a sua história

E o povo saiu à rua

Mandadores de alta financa

Fazem tudo andar para tras

Dizem que o mundo só anda

Tendo à frente um capataz

Eram mulheres e criancas

Cada um com o seu tijolo

Isto aqui era uma orquestra

Que diz o contrario é tolo

E toca de papelada

No vaivém dos ministérios

Mas hao-de fugir aos berros

Inda a banda vai na estrada

José Afonso