Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

20 de novembro de 2005

Os novos bárbaros

OS NOVOS BÁRBAROS. Grassa na pior sociedade portuguesa um novo tipo: o neo-bárbaro, um caramelo mais ou menos iliterato, a quem professores “universitários” entalados pelas revisões do “sistema educativo” deram notas de passagem, conferindo-lhe um “grau académico” para mal dos nossos pecados.

O neo-bárbaro sente-se o Rei dos Leitões da sua rua. Tem evidentemente opinião sobre tudo — mesmo que não tenha sobrado nada dos três resumos de livros condensados que foi obrigado a ler. Mas não passam de carne para canhão. Desprovidos de cérebro próprio, são uns infelizes.

Conheço este tipo de infelizes há décadas. Protegem-se por detrás das saias — da mamã ou do padre ou pior. São radicalmente gregários: só conhecem a lógica do bando. E, porque actuam em bando, acham-se superiores aos outros. Ciclicamente, dois ou mais bandos enfrentam-se em batalhas que são poemas épicos ao atavismo.

Basicamente, estes desesperados clamam contra o que não entendem e fazem-no geralmente sem argumentos. Oh, quanto deles vi recorrerem aos catecismos, na falta de uma explicação; quantas vezes ouvi chavões quando pedi opiniões. E fazem-no enquanto chamam pelo Irmão Mais Velho (ou pelo membro mais bazófias do bando), não vá o diabo tecê-las e o pobre visado virar-se contra ele.

Reclamam-se afortunados herdeiros da coerência em textos onde alardeam, ou expõem (o que devia ser) os seus mais íntimos e nobres sentimentos, os da comunhão religiosa para chamarem exibicionistas aos que expõem intimidades mundanas. Estes novos bárbaros acham-se legitimados pela “civilização” mesmo que dela não compreendam nem a raíz etimológica da palavra.

Ao contrário de Boss, eu conheço imensos católicos desta estirpe, que é a pior estirpe dos católicos. Um terrorismo de ideias que se auto-legitima fundamentado nas suas próprias angústias e vazios. Mas vou mais longe que o Boss pois não tenho nada a perder: penso que os católicos deviam ser proibidos por lei de exibir (impôr!) publicamente aquilo que é manifestamente do fôro íntimo, a fé, para não serem os não-católicos obrigados a suportar as elevadas concentrações de religiosidade, altamente perturbadoras do sossego. Não é preciso o histerismo colectivo ou o exibicionismo que transforma os católicos em bonecos articulados de uma causa defendida por uns quantos xâmanes.