Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

22 de setembro de 2004

Os optimistas

Morais Sarmento disse ontem, assim em jeito de prémio de consolação, que 60 e tal por cento das escolas tinham aberto e exprimiu o desejo de que as restantes abrissem nos próximos dias para que «a abertura do ano lectivo decorresse normalmente». Disse isto com aquele ar superior de enfado com que — aprende-se nas escolas da demagogia política — se devem tratar em público os assuntos privados do Estado. A arraia miúda tranquiliza-se: o homem é que sabe, os jornalistas são uma cambada de inventores de histórias. Julga ele.

O optimismo enquanto atitude está correcto e é até bem vindo de um dirigente. Passa uma mensagem positiva para os dirigidos. Mas receio bem que os optimistas que têm desgovernado este país nos últimos cinco anos já não são levados a sério por nenhum dos seus dirigidos.

Uma alta funcionária pública abriu-me a manhã com a verdadeira mensagem que — suponho — circula no funcionalismo público, motor eleitoral e estandarte económico do país. «Nunca na minha vida estive tão desmotivada nem vi as pessoas tão desmotivadas». Referindo-se em concreto à palhaçada da abertura do ano lectivo adiantou: «Desde que me lembro nunca vi nada assim». Nem eu. No meu tempo as férias de Verão duravam três para quatro meses, sem dúvida pouco pedagógico, mas no dia 7 de Outubro os professores e as carteiras lá esperavam por nós na sala de aula.

Na realidade o que ela tinha para me dizer era outra coisa, isto foram os desabafos. A factura que passei ao seu organismo ainda não se encontra a pagamento. Uma factura vencida a 31 de Janeiro de 2003 — vai fazer dois anos em breve. Como tem sido hábito ao longo destes 20 meses, não há sequer uma previsão para a regularização da dívida.

Como o meu contrato não decorreu conforme o que tínhamos planeado, tendo por isso sido rescindido a meio por acordo entre as partes, cheguei a pensar que era uma espécie de birra e castigo pessoal. Nada. Como a minha existem dezenas de micro, pequenas e médias empresas com facturas por pagar naquele organismo do Estado. Empresas que já pagaram o IVA e o IRC de 2003. Outra não. As que não pagaram acabarão por pagar com juros. Os juros que nunca verei daqueles preciosos 1.000 euros, ridículos 1.000 euros que um organismo do Estado me deve há 20 meses.

Esse organismo vem do tempo do governo do PS. Quando tomou o poder o PSD fez o normal, acabou com uma série de organismos do PS substituindo-os pelos seus próprios. As contas com os novos fornecedores estão em dia (como é sabido, “em dia” significa para o Estado português um atraso não superior a seis meses, como somos apologeticamente avisados quando negociamos um contrato, como se isso fosse uma coisa normal em economia aberta). Presumo portanto que os fornecedores do Estado são encarados como clientelas políticas e como tal devidamente punidas. É assim que me sinto, mais à dúzia de empresas que, como eu, estão há dois anos para receber do Estado: um mero cliente partidário a cumprir um castigo e não o prestador de serviços isento que celebrou um contrato depois de escolhido (entre três) pela sua capacidade para executar a tarefa.

[É desnecessário avisar que não voto PS, como os meus leitores sabem nem sequer voto, e ao longo dos anos de profissão pouco trabalhei na política e não fiz amigos (mas fiz alguns "inimigos"... no PS soarista!). Excepção a José Magalhães, mas é forçado dizer que foi a política que nos juntou: foi a causa das novas tecnologias que nos juntou nos inícios de 90, éramos ambos (e continuamos) entusiastas.]

O optimismo de ministros como o citado Sarmento ou o inefável Bagão Félix a mim não me tranquiliza. Prefiro o ar grave e cansado da ministra Maria do Carmo Seabra, ao menos não engana ninguém. Dá a cara (mesmo não tendo responsabilidade directa no sucedido é ela a responsável política pelo fracasso). Fez o que tinha a fazer (talvez tarde demais, mas ainda não temos os dados todos para analisar). Acabará por se demitir ou ser demitida. Mas ao menos cumpre com as suas responsabilidades, é por elas julgada e não engana ninguém.

Voltando à desilusão que grassa dentro do aparelho de Estado: é de temer o pior, sobretudo depois do discurso patético de Félix sobre o orçamento para 2005 que deixou os funcionários públicos e os trabalhadores do privado à beira de uma depressão. Meio milhão de trabalhadores públicos trabalham sem o mínimo de motivação, sustentados apenas no seu orgulho pessoal (profissional deve ser pouco na esmagadora maioria dos casos, para não dizer nenhum). Outros dois milhões, pelo menos, trabalha no sector privado impulsionado apenas pela questão da sobrevivência das respectivas famílias. Entalados entre a elite esbanjadora e o crescente lumpen esfomeado, os trabalhadores das classes médias vivem uma letargia sem fim. Refugiam-se na telenovela, nas telenovelas. Já nem o consumismo os entusiasma: endividaram-se no tempo das socialistas vacas gordas e agora viva o velho quando se pode comprar um telemóvel. Triste destino o de um povo reduzido a um estado de sobrevivência!

É natural que os optimistas — a começar pelos ministros e a acabar nos barões da economia — sejam optimistas. Têm ordenados decentes que dão para viver e as suas curtas vistas não alcançam o país para lá dos vidros fumados de carros e gabinetes. Eu cá não estou nada optimista. Nas ruas o cheiro é o mesmo dos tempos pré-buzinão. A não-abertura do ano lectivo ainda não foi a gota de água que fez transbordar o copo. Desconfio que foi por um triz. Se eu fosse Santana Lopes estava bem preocupado: não há mais corda para puxar.