Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

27 de junho de 2006

Os provincianos cultos

Miguel Gaspar trocou o sofá por uma poltrona num estádio para assistir a um jogo do Mundial de futebol ao vivo. Escreveu no Diário de Notícias (debalde procurei um link, depois de ter lido no papel)uma crónica sobre essa invulgar experiência na qual relata, com admiração e surpresa, que os alemães, “embora em menor grau” (cito de cabeça), também vivem emocionadamente o acontecimento colocando bandeiras — esses abjectos e ultrapassados símbolos do pior nacionalismo, na perspectiva de alguns intelectuais campónios — nas janelas e nos automóveis e até no corpo.

O Miguel escreveu aquilo com bonomia e humildade, ou pelo menos foi assim que eu (dadas as proximidades profissionais e outras) o li. Mas ainda assim não deixei de pensar com os meus botões que, involuntariamente, é um bom exemplo de um tipo de provincianismo persistente em Portugal mesmo, ou sobretudo, em elites culturais. Estes provincianos cultos … distinguem-se pelo seu atavismo: o acesso à informação, à formação e à educação não lhes abriu os horizontes, continuam enfiados em macacas suposições sobre o mundo. Mesmo os mais viajados, talvez porque subordinados a preconceitos de sangue ou origem (ia escrever classe mas contive-me porque isso é outra loiça), a avaliar pelo que posteriormente transmitem parece que ou passaram o tempo enfiados no quarto do hotel ou nalgum museu bafiento ou num grupo excursionista para burgueses com guia debitante em sete línguas sete. Apreensão da cultura real e do que vivem e sentem os povos, nicles batatóides, como se dizia quando eu era puto.

Futebol? Jogo de bárbaros, logo jogo praticado por portugueses e outros terceiro-mundistas semelhantes, como brasileiros ou ganeses.

Que a Alemanha sedie um mundial, ainda penetra nas mentalidades provincianas, que por definição embasbacam com os dourados e as paradas militares: afinal os pacóvios que gostam de futebol largam todo o seu guito por um bilhete, logo é “inteligente” e “bem” facturar em cima deles. Agora, participar? tenham dó — escrevem tais cegos.

Surpreende-os que pessoas de países “ricos” e “cultos”, como a insuspeita Alemanha (apesar da “anexação” forçada dos pobres coitados da ex-RDA…), vivam afinal o futebol de forma tão prosaica: com entrega emocional aqui, uma ponta de conhecimento do desporto acoli e admiração pelo espectáculo acolá. Os alemães!

Se tivessem realmente mundo que se visse, os provincianos cultos teriam reparado que a Alemanha é uma da principais potências mundiais da modalidade. Se saissem mentalmente da santa terrinha com a mesma desenvoltura com que se passeiam nas gares dos aeroportos, sem dúvida que isso os faria tirar as lentes dos preconceitos e pensar cinco minutos que fosse na razão de tal coisa. Pensar? Ui! Venha de lá mas é mais um enlatado cultural, de preferência de região demarcada e rótulo proeminente.